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sábado, 5 de agosto de 2017

Pacto Sagrado

Pacto Sagrado

Humanos e cães têm, juntos, uma história longa e fascinante. Não se sabe ao certo o tempo do início dessa amizade; alguns estudos falam de 18.000 anos atrás, outros de 33 a 35.000 anos, mas há até pesquisas baseadas em fósseis europeus que afirmam ser de incríveis 135.000 anos (nosso desconhecimento é tão grande na área que não se sabe sequer se esse início foi mesmo na Europa, ou se foi na Ásia). O que se tem certeza é que o cão foi o primeiro animal a ser domesticado, muitíssimo antes de qualquer outro – muito antes, até, do que o início da própria agricultura, considerado como o princípio da civilização, datado em alguma coisa entre 10 e 12 mil anos atrás.

Apesar disso, o “como” essa amizade nasceu é algo de que os pesquisadores têm uma noção razoavelmente clara. Os humanos, agrupados em clãs, sobreviviam da coleta e, especialmente, da caça. Apesar de não serem muito fortes ou muito rápidos comparados a outros animais, nem terem garras ou mandíbulas muito poderosas, esses caçadores primitivos tinham alguns trunfos que os tornavam particularmente bons. Sua pele era capaz de suar – o que significava que, graças à regulação da temperatura, podiam correr distâncias incrivelmente longas (os cães, por exemplo, só têm glândulas sudoríparas no ânus e na palmilha das patinhas. Sabia?). As presas, ainda que bem mais velozes, no geral não eram capazes de manter suas grandes velocidades por distâncias muito longas – e então nossos ancestrais maratonistas as abatiam, às vezes depois de horas de disputa, em estado de exaustão. Extremamente sociáveis, os humanos caçavam em equipe coesas e bem coordenadas; com inteligência sem paralelo, esses grupos planejavam emboscadas, se valiam do terreno (usando penhascos e estreitos) e criavam toda sorte de estratégia para maximizar o ganho (sim, “economia” existe desde sempre, milênios antes de se tornar uma disciplina formal). A falta de garras e mandíbulas grandes era também suprida com inteligência e engenho, que permitiam produzir ferramentas incríveis (tacapes, facas – de pedra, não de metal, óbvio – e lanças foram as primeiras, provavelmente nessa ordem).

Os lobos eram adversários dos humanos e, mais do que isso, competidores, disputando as mesmas presas. É certo que, exatamente por serem bons caçadores, os humanos produziam em seus acampamentos grandes quantidades de restos de caça; isso atraía predadores e, por certo também, o lobo dentre eles.

Aqui, em algum momento, algo mágico acontece. Os lobos, eternos inimigos dos humanos, aprendem (sim, essa é a palavra) que “perto dos humanos há comida”. Isso faz com que alguns lobos comecem a ir com mais freqüência aos acampamentos humanos... Mas somente lobos muito especiais.

Não se sabe ao certo o que ocorre nesse ponto. O mais provável é que os lobos mais medrosos simplesmente não façam isso, e que os lobos mais agressivos façam, mas acabem atacando os humanos (e, nisso, toda a suposta vantagem de “comida fácil” acaba aqui). Somente um tipo muito especial de lobo se aproxima, e volta outras vezes, e não ataca e não é atacado, e finalmente se torna um “freqüentador” da lixeira do acampamento humano: o lobo que, a um só tempo, é corajoso, mas é menos agressivo.

Esse lobo tão especial, com essas características de “corajoso mas menos agressivo”, é o avô de todos os cães que existem sobre a Terra.

E os cães herdaram essas características tão especiais desse avô.

Em algum momento, os humanos perceberam que aquele lobo em particular não iria atacar ninguém, e param de atirar pedras nele. Em algum momento, alguma criança do grupo acaba por atirar, ao invés de pedras, um pedaço de carne ou de osso para ele. Em alguma noite de especial cansaço, aquele lobo resolve dormir por ali mesmo, perto da lixeira, e nenhum humano o incomoda.

Em algum momento, algum dos humanos percebe que faro e audição do lobo são infinitamente melhores do que os dele próprio, e que o lobo tem o sono muitíssimo mais leve (provavelmente por ter evoluído em campo aberto e desprotegido, e não em árvores como nossos ancestrais pré-humanos); e que, por isso, ele é muito melhor do que nós para detectar a presença de predadores ou de humanos inimigos se aproximando.

Em algum momento, esse lobo está dormindo junto dos humanos, e não mais na lixeira.

Em algum momento (gerações, séculos, milênios, ninguém sabe), humanos e cães estão não só dormindo juntos à noite, mas também caçando juntos durante o dia, combinando as incríveis vantagens de cada espécie, que se complementam com tanta perfeição que parecem nascidas uma para a outra.

O lobo continuou a ser nosso inimigo ao longo dos milênios, mas aquele lobo especial se tornou o melhor amigo que jamais tivemos. Aquele lobo deixou de ser lobo e se tornou cão.

A mudança foi incrivelmente profunda. A própria genética do animal foi alterada; morfologia, alimentação, fisiologia, comportamento, praticamente tudo se alterou no cão para se adaptar aos seus amigos humanos.

Vários estudos afirmam que o nosso sucesso como espécie jamais teria sido tão grande se não fosse a ajuda incomparável dos cães. Nós transformamos os cães, mas eles foram parte fundamental do processo que nos transformou no que somos hoje.

Essas dezenas de milhares de anos de amizade profunda deixaram suas marcas. Análises de tomografia computadorizada provaram que os cães têm pelos donos o mesmo “tipo” de afeto que crianças têm pelos pais: quando vêem fotos ou sentem seu cheiro, são exatamente as mesmas áreas do cérebro que são ativadas num e noutro. Com nenhum outro animal “de estimação” ocorre isso. Sim, é como você já sabia: o cão vê os donos como seus “pais”!

Chimpanzés são muito mais inteligentes do que cães e têm incríveis 98% de seu DNA idêntico ao nosso. Ainda assim, testes comprovam que os cães entendem gestos, expressões faciais e até sentimentos humanos infinitamente melhor do que os chimpanzés.

Existe um estudo polêmico sobre cães que “sabem” o momento em que seus donos, a vários quilômetros de distância, estão saindo do trabalho e começando a volta para casa. As filmagens são realmente incríveis (procure no Youtube por Sheldrake, é emocionante). Ninguém sabe ainda se essa “telepatia” é real, muito menos como funciona, mas quem já teve um cão provavelmente concorda com a hipótese.

Há relatos tocantes de cães que, na Idade Média, abandonavam suas casas para correr ao encontro dos donos no meio do floresta, segundos antes de estes serem atacados por... Lobos. Sacrificando a própria vida, esses cães incríveis eram estraçalhados ao enfrentar, sozinhos, matilhas inteiras para que seus donos pudessem fugir em segurança. Seria o cheiro dos lobos? Algum ruído estranho, a vários quilômetros, que só o cão percebera? Como esse amigo fantástico “sabia” o que estava por acontecer com seu humano?...

Nós moldamos esse amigo adorável à nossa vontade. O fizemos carinhoso, meigo, carente até. O fizemos pequeno para caber em espaços confinados e até em bolsas, grande para intimidar invasores; em formato de salsicha para caçar em túneis, em formato de "galgo" para correr mais do que coelhos e abatê-los; com mordida suave para não estragar a caça recém-abatida, com mordida destruidora para ser nosso guarda-costas; com pernas curtas para caçar ratos em celeiros, com pernas longas para caçar em campo aberto; com focinho longo e olfato aprimorado para encontrar a caça, com focinho curto e mandíbula poderosa para nos proteger.

Nossa “moldagem” do cão foi tão profunda que, veja-se que exemplo curioso, cães pastores nunca atacam rebanhos, de nenhum tipo, mesmo que estejam famintos (e rebanhos são presa natural dos lobos). Mais incrível ainda, os cães pastores ficam extremamente nervosos apenas com o simples cheiro de um lobo. Sim, a amizade é tão profunda que o cão incorporou em seu DNA que deve proteger nossos rebanhos, ao invés de atacá-los; e, mais ainda, incorporou que ele é inimigo de seu próprio ancestral.

É ESSE o nível de amor e de “moldagem” que construímos ao longo dos milênios com esse nosso amigo de quatro patas.

Nós moldamos os cães ao nosso desejo e à nossa necessidade. E eles aceitaram tudo, inclusive essa enorme mudança em sua própria genética.

Até isso eles fizeram por nós.

O cão, no entanto, pagou um preço terrível por essa entrega sem limite aos seus amigos humanos. 

Ele perdeu a capacidade de sobreviver sozinho.

Para se amoldar à nossa conveniência, o cão perdeu praticamente tudo que o lobo tem para sobreviver na natureza.

É nisso que eu penso toda vez que vejo um cão abandonado. Nós o transformamos no que queríamos, fazendo com que, no processo, ele dependesse completamente de nós... E então nós o abandonamos, no frio e na sujeira, para que ele “se vire sozinho”. É esse o nível de traição que praticamos cada vez que abandonamos um desses nossos amigos.

É uma amizade de dezenas, talvez centenas de milhares de anos, que estamos desprezando. É um pacto sagrado que nós, como espécie, estamos vergonhosamente quebrando.

Pense nisso da próxima vez que vir um “cão de rua”... Lembre-se de que ele não “é” de rua, ele ESTÁ na rua porque eu, você, todos nós fizemos isso com ele. Nós violamos o pacto sagrado, traímos sua confiança e o deixamos sozinho.


Pense nisso. 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Meu Depoimento para o Escola Sem Partido

Segue o depoimento que mandei para o ESP. E eu sou só um entre milhões...

Escola Sem Partido – Depoimento


Prezados,
Acompanho e admiro o trabalho do Escola Sem Partido há muito tempo. Acredito que, no longo prazo, a luta pelo fim da doutrinação nas salas de aula é o que de mais importante pode haver para impedirmos que o Brasil afunde no totalitarismo.
Claro, parte da estratégia de quem pratica lavagem cerebral contra crianças é ou dizer que isso não existe, ou tentar minimizar a prática.
Eu sou a prova viva de que eles mentem. Para quem viveu a doutrinação, chega a ser patético ouvir que isso “não existe”, ou que “não é tão grave”, ou que “é questão de opinião”.
Este é o meu depoimento.
Estudei o que na época se chamava “primário” em escola pública, em meados dos anos 70, e a partir do “ginásio” num colégio de padres jesuítas. A “Teologia da Libertação” fazia com que os dirigentes do colégio considerassem questão de fé a doutrinação marxista desde o mais cedo possível. Os professores, por sua vez, eles próprios também doutrinados desde sabe-se lá quando, atendiam alegremente a exigência – e o nível do ensino era bastante baixo, mas o nível de doutrinação era extremo. Não aprendíamos nada além de “uma visão marxista” de cada matéria, ao invés de a própria matéria.
Lembro-me bem que até as aulas de matemática (sim, até elas!) eram moldadas com coisas como “considerando-se um latifúndio improdutivo de x m2 invadido pelo MST, quantas bravas famílias de sem-terra serão legitimamente contempladas...” Aula após aula, dia após dia, ano após ano, nada escapava de um prisma marxista sobre todas as matérias. Todas, em tudo, o tempo todo. E ai daquele que não repetisse o discurso oficial!
“As Veias Abertas da América Latina” e “História da Riqueza do Homem” eram os livros básicos e onipresentes de história e geografia, e nenhuma fonte “não autorizada” era admitida. Mais do que isso: esses livros também eram usados para literatura, interpretação de texto, atividades extra-classe, tudo. Os próprios manuais dessas disciplinas eram também tão “engajados” quanto. A vulgata marxista era o começo, meio e fim de todo o processo de ensino.
O uso da autoridade na imposição de idéias era a tônica: ensinava-se o marxismo como sendo uma verdade científica e incontestável, ao mesmo nível de “científica e incontestável” conferido à lei da gravidade do professor anterior, como da reação química explicada pelo professor que viria depois; e, claro, quem não fizesse a reprodução fiel do discurso ensinado era não apenas discriminado e ridicularizado, mas ameaçado ou efetivamente reprovado.
Salvo casos muito excepcionais, não há criança que consiga se proteger disso. Esse processo de moer cérebros é pavoroso, mas eficiente: a grande maioria sairá dele como militante autômato, com pouca ou nenhuma capacidade de raciocínio crítico. Há, hoje, milhões de adultos-zumbis que, inteligentes em outros aspectos, comprovam a validade da técnica em tudo que se relaciona a política ou economia.
Foram anos difíceis, sempre sob a ameaça de reprovação. Ainda assim, jamais serei grato o bastante a Henry Maksoud e sua Revista Visão, que adquiri o hábito de ler bem antes de ser submetido ao moedor de cérebros – e que me mostrou o mundo sob a óptica das idéias da liberdade, da pluralidade de pensamentos, do uso efetivo do raciocínio sobre questões sociais (sim, acredito que vai haver gente desonesta o bastante para comparar a “leitura de textos que encontrei por conta própria” com a doutrinação que descrevo). Boa parte dos meus colegas não teve a mesma sorte e, ainda que a realidade comprove os erros e os absurdos diariamente, continuam até hoje acreditando no discurso dos doutrinadores escravocratas quase com a mesma fé que acreditam na gravidade ou na classificação ácido/base.
Isso não é uma opinião, não é uma hipótese, não é uma teoria. Isso são FATOS. Isso foi minha vida. Estou aqui para contar a quem queira ouvir.


R. Ives Braghittoni
Bacharel, mestre e doutor em Direito

Advogado e professor

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Ironias da Vida

Com a onda de protestos que se iniciou duas semanas atrás, eu passei a publicar em redes sociais esta pequena série de "Ironias da Vida"...

Vou deixar aqui para manter o registro :-)


 
Capítulo I

Nós passamos A VIDA INTEIRA ouvindo os petistas repetirem que “a polícia é o instrumento dos donos do poder”, que ela serve para “manter o povo no seu lugar” e para a “perpetuação no poder” da “elite política”. Por MILHÕES de vezes eles repetiram Foucault e “Vigiar e Punir” e como o “aparelho repressor” serve “à manutenção do Estado opressor” e Foucault de novo e como “a violência policial” serve “à classe dominante” e “sufoca os movimentos populares” e “a voz das ruas” e...

                                   Ontem, milhares de manifestantes tentaram invadir o Itamarati e outros palácios do governo. POR FAVOR, senhores petistas, eu gostaria que, AGORA, vocês repetissem essa ladainha que vocês declamaram a vida inteira. Repitam-na agora, mais uma vez, enquanto assistimos de novo as cenas de ontem!

 

Capítulo II

Durante nada menos do que OITO ANOS seguidos os petistas urraram “Fora FHC!” – e diziam que isso era “exercício da democracia”, “direito de manifestação”, “a legítima voz do povo”, “a vontade que vem das ruas”, etc.

Agora, parcelas grandes das manifestações populares dizem “Fora Dilma”. Qual a opinião do PT a respeito?

“Golpe!”, “decidam nas urnas!”, “baderneiros fascistas!”...

...

Ah, que divertido assistir a hipocrisia dessa turma se expor assim, tão escancarada...

 

Capítulo III

Já tem petista dizendo que, para “manter a ordem” e “garantir a Constituição”, não bastam balas de borracha e bombas de efeito moral: estão defendendo “o Exército nas ruas” e munição real, tiro de fuzil mesmo, contra “esses golpistas”.

Quem diria, o governo do PT, que já estava tão idêntico à ditadura militar em âmbito econômico (particularmente igual ao “desenvolvimentismo Geisel”) agora também está ficando igual até no discurso!!...

PT, PT... Quem te viu, quem te vê...

Mais um cappuccino, por favor!

 

Capítulo IV

Aula de meditação pluri-holístico-zen-taoístico-transcendental com Tio Ives

 

Fique em posição de lótus (é, dói as costas e dá câimbra no dedão do pé, eu sei). Respire profundamente... Expire bem lentamente...

Imagine uma névoa (azul, claro) lentamente descendo e envolvendo todo o seu corpo...

Agora, bem concentrado...

Beeeeem concentrado... Imagine o quanto o PT estaria berrando se fosse QUALQUER outro partido que estivesse no poder durante as manifestações populares!!...

Imagine se fosse com FHC!!...

Ah, a eterna dupla moral do PT!...

 


Capítulo V

“Ah, que lindo, o povo se manifestando, o povo foi às ruas, a voz do povo, ai que lindo, saímos da inércia, o gigante despertou, o povo, o povo, o povo... Epa! Peraê! O povo está reclamando de nós!! De NÓS!! Como se atrevem? Nós criamos o Brasil maravilha que aparece na TV!! Nós é que acabamos com a miséria por decreto!! Nós é que sabemos o que é melhor para eles!! Povo de baderneiros! Povo de direitistas!! Povo de fascistas!!”

 

 Capítulo VI

E aí, será que já dá pra dizer que o projeto de poder perpétuo do PT “foi pro vinagre”? Será que Lulla vai mesmo substituir Dilma na sucessão, já que até dentro do PT ninguém mais duvida do desastre que foi o governo dela?

Ou será que vão usar as manifestações como desculpa para dar um golpe e implantar a ditadura que sempre quiseram?...

  

Capítulo VII

“Manifestação? Que manifestação? Não existe manifestação nenhuma. Não há provas de que exista alguma manifestação! É tudo invenção da mídia golpista!

Aliás, esses manifestantes que não existem são todos agentes pagos pela CIA!!...”

 

Capítulo VIII

Então tá combinado: podem falar o que quiser, mas nunca, NUNCA mais digam que o povo brasileiro é bundão, beleza?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Heróis da Resistência


Porque as ruas estão sempre cheias de lixo? Porque as pessoas jogam lixo nelas, é óbvio – e é assustador saber que, em São Paulo, a prefeitura gasta com varrição mais de um terço de todo o gasto com educação. E, mesmo assim, as ruas continuam sempre imundas; o que também não é de surpreender, já que, enquanto as pessoas continuarem jogando lixo na rua, nem se fosse gasto o triplo do orçamento da educação elas ficariam limpas (claro: ou muda-se a cultura, ou vai ser preciso um gari para cada habitante).

E esse é só o sinal mais visível de um grau de incivilidade que, além de profundo, parece estar piorando; é o mais visível, mas está longe de ser o único. Sinceramente, não sei se eu é que estou ficando velho demais, e portanto incomodado demais, ou se as coisas realmente estão piorando. Afora a incontornável questão da idade, às vezes acho que há, sim, um assustador contágio de tudo que existe de pior no comportamento das pessoas (tenho vontade de falar sobre o “efeito espelho”, mas isso fica pra outro dia). Parece que o certo é rapidamente desaprendido, enquanto o errado é assimilado com a mesma velocidade. O que diabos está acontecendo? Isso me lembra aqueles filmes de vampiro (os de zumbi também servem) em que o sujeito mordido se torna vampiro, e em seguida também sai por aí mordendo e... Será que falta de educação é contagiosa?...

Não sei, sinceramente não sei. O que sei é que vou dedicar este texto a todos aqueles que bravamente se recusam a ingressar nessa pavorosa maré de desrespeito e anti-cidadania. São verdadeiros heróis da resistência. A eles! :-)

A todos aqueles heróis que, óbvia e primeiramente, se recusam a jogar lixo na rua – que se recusam a usar como lixeira o espaço que é de todos. Àqueles que, além de não fazerem isso, ainda conseguem se sentir indignados com quem o faz, tanto quanto com quem diz coisas como “todo mundo joga” e “os garis ganham para isso”.

A todos aqueles corajosos que se recusam a falar no elevador, incomodando o espaço coletivo com seu palavrório privado – especialmente usando o bendito telefone celular. Aos que, igualmente, vão ao cinema para assistir ao filme, não para incomodar o mundo com sua verborragia infecciosa. Aos que se negam a aderir à barbárie no trânsito e continuam respeitando suas leis (lembremos que são LEIS, não “sugestões”!) – e se recusam a fechar os outros, a parar em cima da faixa de pedestres, a entupir o mundo estacionando em local proibido. A esses bravos que se recusam a aderir ao “todo mundo faz” das ruas, mesmo assistindo os absurdos ao volante praticados pela turma do “o bom é levar vantagem”. Aos sentinelas que rejeitam as infinitas formas de “jeitinho” para resolver, com algum tipo de patifaria, o que não conseguem (ou têm preguiça de) resolver com competência. Aos que, por não terem necessidades profundas de auto-afirmação, conseguem conversar sem interromper o infeliz interlocutor a cada meio segundo.

Aos guerreiros que não aceitam tossir em cima dos outros, nem espirrar em cima dos outros, nem bocejar exibindo o esôfago para o mundo – e, em respeito à saúde e higiene alheias, praticam o enorme esforço de pôr a mão na frente da boca durante esses atos. Heróis! Aos que conseguem deixar que os outros espirrem em paz, sem dizer “saúde” ao pobre autor da esternutação. Aos valentes que não furam fila, mesmo assistindo o mundo inteiro fazendo isso. Aos que têm a fulgurante inteligência de entender que, para entrar em qualquer lugar (seja numa sala, num elevador ou num vagão de metrô) é também muito mais fácil, além de mais educado, esperar sair quem já está dentro! Vejam que idéia revolucionária!

Acima de tudo, aos heróis que rejeitam a imundice suprema de falar de boca cheia – e cuspir comida em cima dos outros e da comida dos outros (sem falar naquele barulho nojento)!!... Esse, pior do que o crack, o analfabetismo ou a corrupção, é o mal maior que atinge nossa civilização cambaleante! Aos guardiões da civilidade que não se contaminaram com essa podridão, Ave! Ave adsertor civitas, mortitani salutari!! A barbárie avança, mas a civilização ainda tem os seus soldados!

Brincadeiras à parte, sempre defendi que, nas últimas décadas, o mundo tem melhorado muito, em quase todos os aspectos. Em alguns pontos básicos de civilidade, porém, pelo que consigo enxergar do meu pouco tempo de vida (“pouco” em termos históricos; não vou desmentir no final do texto o peso dos anos que admiti no começo) parece que estamos regredindo. O que está acontecendo?

domingo, 6 de setembro de 2009

Sendo Prudente


Há alguns dias, recebi esse texto de uma amiga... A autora é a psicóloga Thaís Sá Pereira e Oliveira. É um pouco longo, mas vale a pena.


SENDO PRUDENTE

Vou falar aqui sobre indivíduos que são, comumente, vistos como lobos com pele de cordeiros. São indivíduos que tendo um mau caráter, sabem encobrir isso muito bem. É possível encontrá-los em qualquer lugar, por mais selecionado que seja. Tanto podem ser homens como mulheres, jovens ou maduros. As características básicas são o desejo de usar os outros para atingir seus objetivos e o fato de não se sentirem culpados por agir dessa maneira. Eles aparecem e desaparecem sem dar explicações, e não se preocupam com a reação de decepção e tristeza que podem provocar em parceiros ou amigos com esse tipo de comportamento. Na verdade, são raros e tênues os vínculos afetivos que chegam a estabelecer.

Através de um site de relacionamentos é possível se topar com um tipo desses. Repetindo: eles estão em todos os lugares. Quem sabe, lendo a respeito, fique mais fácil reconhecê-los? Na coluna, tenho feito, seguidamente, explanações sobre os riscos de contato com pessoas que possuem esse perfil. Raramente, chegam a um consultório para tratar-se, uma vez que seu modo de agir não lhes provoca mal-estar ou ansiedade.

Por não apresentarem os sintomas que caracterizam doentes mentais graves, como alucinações, delírios etc., os psicopatas respondem perante a lei pelos crimes cometidos, e recebem penas semelhantes às de um infrator comum. Da mesma forma, seu comportamento pode ser semelhante ao de um cidadão comum. Por isso, é necessário que se esteja atento a certos indícios que podem revelar essa disfunção de caráter. Tentarei, aqui, descrever seu modo de se apresentar.

Dificilmente, as pessoas que sabem quem são esses indivíduos fazem comentários a respeito deles, por temerem retaliações; não ignoram que por debaixo da capa de cordeiro se escondem seres humanos perigosos dos quais é preferível manter distância. No trabalho, mostram-se prestativos e sedutores, visando conquistar a simpatia de todos e ocultar sua patologia. Quando, por algum delito, chegam a ser encarcerados, sabem liderar seus companheiros e sofrem poucos danos. Em presídios manicomiais, costumam destacar-se por bom comportamento, ajudando médicos, psicólogos, enfermeiros e doentes. Sua meta é: 1) ser visto como tendo um bom coração; 2) ter prerrogativas que outros não têm; 3) verem encurtada sua pena.

Vale a pena desconfiar de homens ou mulheres particularmente envolventes, que captam detalhes da realidade que passariam desapercebidos à maioria das pessoas. Eles costumam perceber, com grande facilidade, os pontos fracos daqueles que estão em sua mira; têm um faro especial para descobrir o que agrada aos que lhes interessam assim como o que fazer para se tornarem, eles mesmos, agradáveis. Os psicopatas costumam fazer amizade e tornar-se íntimos com extrema facilidade; sabem pinçar as pessoas que irão ajudá-los a penetrar em lugares que lhes pareçam importantes e que eles não teriam condições de freqüentar por seus próprios meios. Buscam, também, obter informações privilegiadas para atingir seus objetivos ou mostrar às demais pessoas o seu prestígio.

Outra vantagem de se tornarem íntimos de indivíduos socialmente valorizados é a perspectiva de ter como chantagear os que sabem demais a seu respeito. Não têm nenhuma dificuldade em se adaptar a situações novas e mentem de forma convincente. Na relação com as mulheres que se propõem a explorar, aparecem, em geral, como totalmente disponíveis, o que as encanta.


Convencem-nas a mudar-se para a casa delas com naturalidade, e parecem manter com elas um estreito vínculo afetivo. Isso não impede que, de acordo com suas necessidades ou caprichos, inventem, subitamente, situações de atrito, fazendo-se de vítimas, com o intuito de justificar uma alteração de comportamento e retirar-se, tranqüilamente, indo se alojar, por exemplo, na casa de outra mulher, cuja aproximação lhes pareça mais promissora. Ao irem embora, podem levar consigo algum objeto, por menor que seja o seu valor, para mostrar a si mesmos e às suas vítimas seu poder e o desprezo que sentem por elas.

Os psicopatas dobram-se perante a lei quando esta chega a representar perigo à sua integridade física ou à sua liberdade. Precisam sentir-se ameçados e respeitam quem tem poder para contê-los ou para oferecer-lhes o que desejam. Quando as coisas não dão certo, eles são capazes de deprimir e procurar ajuda. Tais crises duram, porém, pouco tempo e o que acontece é a abrupta interrupção do tratamento. Se não forem acossados, podem optar por alimentar nos outros a impressão de que são vítimas inocentes de má sorte ou de injustiças sociais, e preservam sua face de “cordeiro”.

Há homens que não chegam a fazer ameaças violentas e agressivas mas manipulam suas presas de forma perigosa. Nos dias atuais, mulheres bem posicionadas profissionalmente, narcisistas e onipotentes (que se crêem capazes de tudo conseguir), podem ser incapazes, por "arrogância", de reconhecerem que estão sendo usadas. Deixam-se enredar por homens que lhes tiram não só dinheiro, mas que recebem presentes e favores: camisas caras, sapatos importados, perfumes, viagens românticas a locais sofisticados, carros, programas em restaurantes ou lugares dispendiosos que não teriam como freqüentar. Muitos fazem tentativas de estabelecer negócios em que a mulher é convidada a entrar com o capital. Normalmente, não levam adiante seus projetos, causando grandes prejuízos a quem confia neles e os financia.

Um dos cuidados desses homens é tentar afastar suas parceiras de amigos inteligentes e experientes. Comumente, são contra a idéia de que elas façam uma terapia por temerem que sejam esclarecidas a respeito da relação que estão mantendo com eles. Sabem que há o risco de uma terapia ajudá-las a sair de uma posição de negação da realidade e reconhecerem o que está praticamente claro e evidente, mas que elas, inconscientemente, não querem perceber. A terapia teria como efeito levar a “vítima” a escapar ao controle deles. Muitas das mulheres que se relacionam com esses tipos estão sujeitas a entrar, mais cedo ou mais tarde, crises depressivas causadas por sentimentos de impotência e vergonha. Muitas vezes, é o medo da solidão que sustenta esses relacionamentos.

Soube de homens que ficaram muito irritados quando descobriram que a mulher estava fazendo terapia. O motivo é que ela estava gastando o dinheiro dela consigo mesma, o que era considerado por eles como um desperdício. Na cabeça deles, dinheiro bem empregado é o que é gasto com eles... Esses mesmos homens costumam alimentar vários casos paralelos com mulheres em geral sem posses, que não lhes despertam inveja. Fazendo isso, tripudiam, mesmo que de forma oculta, sobre aquelas que exploram e invejam.

Sem dúvida, há mulheres jovens e maduras também psicopatas. Representam, igualmente, perigo a homens pouco experientes ou incapazes, por um problema de "negação", de perceber que entre eles e o objeto cobiçado existe uma autoconfiança patológica da parte deles, que os cega e que os fará derrapar e levarem um tombo cujas consequências podem ser graves. Homens também se apaixonam e são vítimas de mulheres sem caráter, que usam a beleza e o sex-appeal para enredá-los.

Você dirá que é difícil discernir um/a psicopata de uma pessoa equilibrada que apresente algumas das características aqui mencionadas. Sim, não é fácil, sobretudo se você for onipotente, arrogante e desatento. Bem, meu conselho é: atenção e prudência. Dei aqui várias pistas que devem ser observadas. A regra é: precaver-se. E uma das regras básicas de proteção pessoal é não hospedar em casa nem no coração, pessoas desconhecidas. Para isso, é preciso que se saiba diferenciar uma pessoa conhecida de uma desconhecida. Aquele que é incapaz de estabelecer essa diferença dá provas de não estar preparado para lidar com a realidade de forma adequada, expondo-se a sérios riscos. A pessoa dita de “boa-fé”, “ingênua”, é, na verdade, indiscriminada, e pode ser considerada mais prejudicada quanto à sua saúde mental do que uma outra com traços paranóides (que vê perigo em tudo), posto que o mundo está visivelmente violento e ameaçador.

O desinteresse pelo que acontece em torno de si, a aversão em ver programas em que são exibidos fatos violentos do cotidiano, e a recusa a ler notícias que trazem fatos desagradáveis do dia-a-dia indicam também um tipo de patologia em que a negação da realidade (gênero avestruz) coloca os cidadãos mais expostos a situações de risco. Isso acontece quando a pessoa se toma como invulnerável, sentindo-se destacada do mundo em que vive, como se a vida fosse um filme ao qual ela assiste tão protegida como um espectador. Espero que aproveite esta leitura e que reflita sobre sua boa-fé, sobre a presença ou não de onipotência (confiança exagerada em si mesmo) em você. Uma visão superficial dos fatos nos deixa sempre mais expostos aos perigos que sempre existem quando se vive em sociedade.

Thaïs Sá Pereira e Oliveira, psicóloga (CRP: 1821/05), psicanalista da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (Rio de Janeiro) e da Federação Internacional de Sociedades Psicanalíticas (Nova York).

quarta-feira, 1 de julho de 2009

"O Grande Irmão a tudo vê", ou como até eu fui assistir BBB


Publicado por Braghittoni Ives em 23 Mar 2009 sob: Cultura, Comportamento (editar)

Eu iria tratar do filme Wacthmen… Mas ele não merece. Leia o texto anterior, pense naquilo tudo bem piorado e você entendeu o que é o filme. Em resumo, já tenho meu candidato para o prêmio Framboesa de Ouro de pior filme do ano. E também para pior roteiro adaptado, pior ator (o que é aquele Ozimandias com cara de Clodovil?!…), pior atriz (precisa explicar?…), pior trilha sonora…

Falemos, então, do tsunami televisivo de todo começo de ano: “Big Brother”.

Tenho um amigo, também escritor, que costuma brincar dizendo que o talento verdadeiro se mostra quando conseguimos escrever sobre algo que não conhecemos; “escrever sobre aquilo que se domina é fácil”, diz ele, “bom mesmo é quem consegue escrever sobre aquilo de que não sabe nada”. Claro que é uma piada, mas é exatamente o que vou tentar fazer hoje: escrever sobre algo de que não conheço quase nada. Não só porque é o assunto da moda, mas também porque minha “ex” está lá dentro (fazer o quê… :-)… ) – além, é claro, do insopitável prazer de ser do contra (já explico o porquê…), então vou tentar expor a visão de alguém que nunca antes tinha assistido aquilo.

O motivo do nome deve ser de conhecimento geral: o “Grande Irmão” (“The Big Brother”) é como é chamado o dirigente máximo da Eurásia, país fictício de que a Inglaterra faria parte na apavorante ficção de George Orwell, “1984”. As circunstâncias em que essa obra prima foi escrita também são bem conhecidas: depois de vencido o nacional-socialismo de Hitler, o mundo se entorpecia de felicidade em achar que a democracia triunfara definitivamente; o livro de Orwell era um assustador alerta de que o socialismo estava longe de ser extirpado – como a URSS demonstrava de forma bem convincente. Um dos mecanismos de que o Estado totalitário do Grande Irmão se utilizava para controlar a população eram as “teletelas”, parecidas com televisores exibindo propaganda socialista 24 horas por dia, mas que também fiscalizavam os cidadãos, observando e filmando cada movimento que faziam e dando ordens o tempo todo a cada um, individualmente – daí o motivo do nome.

A primeira observação que faço então é que esse nome, apesar de ser mera metáfora, está errado. Os participantes, como em 1984, são mesmo observados o tempo todo, mas não recebem ordens. As câmeras só observam; não há ordens para tudo e para todos, nem vindas delas nem de lugar algum – o que torna tudo bem diferente do mundo criado por Orwell. Ainda bem, diga-se!

Outro nome que me parece equivocado: aquilo não é um “reality show”. O tal BBB pode ser tudo, menos um “espetáculo de realidade” – porque o que é filmado é tudo, menos realidade. Quer coisa mais irreal do que ficar semanas trancafiado numa casa, cercado de pessoas que você nunca viu? Sem poder sair, sem nenhum acesso ao mundo exterior? O que isso tem de “realidade”? Bom, talvez você tenha tido experiências próximas a essa se já viajou para Ubachuva ou São Sebastrovão e ficou preso em casa por tempestades intermináveis (:-) ), mas para a maioria dos mortais isso está bem longe de uma “exibição de realidade”.

Mas indo ao que interessa: é incrível o quanto as pessoas abominam esse programa – ao mesmo tempo em que os índices de audiência são sempre incrivelmente altos. A matemática me obriga a concluir que boa parte desses críticos são também, ao mesmo tempo, ávidos espectadores.

Não vou entrar na discussão sobre se o programa é bom ou ruim; não só porque já há milhares (talvez milhões) discutindo exatamente isso, como porque não é isso que interessa: cada um que saiba por si se deve ou não assisti-lo. A grande questão é, justamente, a liberdade de ver. Essa merece ser discutida e defendida.

Há aqueles que dizem “o programa é uma droga, então eu decido que eu não vou ver”. Ótimo. O grande problema é que há quem diga “o programa é uma droga, então quero decidir que ninguém no mundo tenha o direito de decidir se vai ou não ver”. São poucos os que têm coragem de colocar as coisas em termos tão claros, mas é exatamente isso o que muitos defendem. E é isso que tem de ser combatido.

Essas pessoas levaram muito a sério a idéia do “Grande Irmão”. Tão a sério que querem se transformar nele. “EU acho que BBB é ruim, então EU decido que ninguém mais pode assistir” – socorro! Quem lhe deu esse direito, Cara Pálida? Quem o nomeou ditador do mundo? Tantos anos passados depois de escrito 1984, depois do próprio ano de 1984, e o livro se mantém cada vez mais atual.

Os argumentos para defender essa proposta de censura são mais bizarros do que dia de paredão (viu? Estou aprendendo!). Há quem diga que “as crianças assistem”, e se é ruim, então “deveria ser proibido” (olha o Grande Irmão aí, gente!!), porque os pais “não conseguem controlar os filhos”. Traduzindo: algumas pessoas não aceitam que são responsáveis por criar os filhos que tiveram; eles querem que a televisão os crie. Então, ao invés de decidirem o que os filhos podem ver, acham que têm o direito de decidir o que o mundo inteiro pode ver. Que pavor! Nem Orwell pensaria numa sandice como essa!

Outros seguem uma linha diferente: as televisões seriam obrigadas a produzir e emitir programas “de qualidade”, porque são “concessão pública”. A idéia já nasceu errada: “qualidade” na opinião de quem? Quem será o gênio eleito para decidir? Não deveria ser cada cidadão decidindo por si mesmo?… Ah, claro… O cidadão só poderia “escolher por si mesmo” se tivesse “educação adequada”… Estranho: ele pode eleger o Presidente, mas não pode eleger o que quer assistir na televisão.

Pior ainda é o próprio conceito de “concessão pública”, um resíduo da época da ditadura criado para que só os “amigos do rei” fossem contemplados com canais de TV e de rádio, a fim de que neles só fosse dito o que Sua Majestade quisesse. A majestade mudou de nome, mas a idéia continua útil: por ser “concessão pública”, a TV só deveria mostrar o que “alguém” quer, não o que o próprio cidadão decidiu assistir. O Grande Irmão agradece!

Variação do mesmo tema é que a TV deveria ter programação “cultural”. Esse é uma mistura dos dois anteriores: a educação que a escola não deu seria, na mente dos gênios de plantão, responsabilidade da TV; além disso, deveria mostrar o que “alguém” decidiu que era “cultural” (lembram dos manifestos de Goebbels determinando o que era e o que não era “arte” para o 3º Reich??…). Bem estranho isso… Bem digno do Grande Irmão. Se o cidadão decide que quer passar seu tempo de descanso caminhando numa praça, ninguém exige dele que esse passeio seja “cultural”; mas se decide que, ao invés de ir a uma praça, vai descansar ficando em casa e assistindo BBB… Pronto, abriram-se as portas do inferno.

Em resumo: a única forma de censura que se pode admitir é o controle remoto. O resto é conversa das viúvas da ditadura, ou de aprendizes de Grande Irmão. :-)

E por fim: boa sorte, Fran!! Estou torcendo por você!! E votando também, descobri que dá pra votar pela Internet!!

Previsões para... 2008

Publicado por Braghittoni Ives em 25 Jan 2009 sob: Comportamento (editar)

Ano novo, vida nova! E com o ano-novo, chega também a enxurrada de “previsões” de como ele será, pelos mais variados oráculos. Nosso desejo de saber o futuro antes que ele chegue parece mesmo incontrolável.

Este ano, porém, vou propor uma coisa diferente. Que tal, ao invés de ver as previsões para o ano-novo, olhar para as previsões do ano velho?

Uma rápida consulta na internet mostra como foi a mesmíssima enxurrada, só que de um ano atrás… Vamos ver se há algo que se aproveite ali.

É o “ano do rato” no horóscopo chinês; vai ser um ano de “fartura duradoura”… Hum, parece que o rato não se saiu muito bem em prever a crise… Bom, o ano vai ser “regido por Marte” na astrologia tradicional. Marte, “deus da guerra”… Pois é, só que a determinação que a astrologia faz para o que chama de “alinhamento de planetas” (para dizer qual é o “regente”) é completamente aleatória. É tão aleatória que se utiliza da posição da Terra com relação ao céu como ele era há 2.000 anos, e hoje essa posição relativa é completamente diferente por causa do movimento de precessão do nosso planeta. O próprio nome do planeta, Marte, também é completamente aleatório, tanto quanto todos os outros. O planeta que hoje chamamos de Marte poderia se chamar Saturno, ou qualquer outro deus da mitologia romana… Ou até de alguma outra mitologia… Tá bom, é melhor pular a astrologia.

Já na numerologia, encontra-se várias vezes a seguinte preciosidade, com redações diferentes mas de sentido bem parecido: “considerado um ano de início de ciclo, 2008 será um ano para aprender coisas novas, crescer e explorar novas opções.” Nossa, que profundo isso, não? E mais essa: “no próximo ano, devemos nos desvencilhar da velha energia do ano anterior, que apenas terminou, como tinha que ser”. Nossa, sensacional!! O ano que terminou “apenas terminou, como tinha de ser”!! Que bom que ele não terminou e começou de novo!! O que iríamos fazer com os calendários usados, não é mesmo?

Hum… É, eu devo estar procurando no lugar errado. Ou isso, ou essas previsões são tão confiáveis quanto… A criatividade de quem as fez.

Façamos, então, o contrário – vamos partir dos fatos para as previsões. Alguém já sabia, com antecedência digna de oráculo, de algum dos fatos mais importantes que ocorram no ano passado?

Vejamos as eleições municipais… Não, nada. Não acho ninguém que tenha predito algo certo, em nenhuma capital – e nem eram tantas opções assim. As previsões são sempre tão genéricas, tão cheias de “faça isso bem feito, tome cuidado com aquilo”… Aliás, manifestações assim merecem mesmo o nome de “previsões”?… Tudo é tão genérico, e mesmo no genérico conseguem errar.
Vejamos a eleição de Barack Obama como candidato democrata… Não, só um “leitor de runas” americano diz que Hillary Clinton venceria. Ele tinha 50% de chance de acertar, e ainda assim conseguiu errar… Ninguém acertou quem seria o candidato democrata, muito menos que ele seria eleito presidente. Nada. Um “evento cósmico” desse tamanho, e nenhum vidente o viu? Mas que decepção!

E a crise econômica? Ah, essa até o mais míope dos paranormais teria de “sentir”!! Mas… Não, nada. Ninguém previu a crise. Aliás, as previsões dizem exatamente o contrário: de novo, é o “ano de Marte”, então seria um bom ano para “empreendedores” e para “correr riscos”… Ótimo ano para aplicar na Bolsa, então?… Ai, ai!!…

Bom, pelo menos que iríamos descobrir água em Marte algum astrólogo previu, certo? HUm, não? Nem isso?!? Mas era o “ano de Marte”!!… Assim não brinco mais, ora.
Renúncia de Fidel Castro. Concordata do Lehman Brother. Desfecho trágico do seqüestro de Eloá Cristina Pimentel. Compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil (essa teria sido ótima de saber com antecedência, não? Viram o quanto as ações subiram? Por que nenhuma dessas “previsões” me avisou disso?!?). Fusão de Unibanco e Itaú (essa também… Droga, que falta faz uma bola de cristal que funcione!!). Crescimento vertiginoso da economia dos EUA. Queda maior ainda da economia dos EUA quando estoura a crise do crédito imobiliário. Liberação pelo STF das pesquisas com células-tronco embrionárias. Qual desses fatos foi “previsto”? Nenhum. Nada, nada, NADA sobre isso foi dito nas “previsões”.

Então… Vendo como foram as “previsões” de 2008, vale mesmo a pena perder tempo com as “previsões” para 2009?

Vale, claro! Não vamos perder a chance, em 2010, de dar boas risadas com elas!… :-)

Não disse antes, porque não podia falar em felicidade enquanto escrevia sobre Gaza, mas ainda está em tempo: feliz ano-novo para todos. Paz, saúde e prosperidade!