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sábado, 5 de agosto de 2017

Pacto Sagrado

Pacto Sagrado

Humanos e cães têm, juntos, uma história longa e fascinante. Não se sabe ao certo o tempo do início dessa amizade; alguns estudos falam de 18.000 anos atrás, outros de 33 a 35.000 anos, mas há até pesquisas baseadas em fósseis europeus que afirmam ser de incríveis 135.000 anos (nosso desconhecimento é tão grande na área que não se sabe sequer se esse início foi mesmo na Europa, ou se foi na Ásia). O que se tem certeza é que o cão foi o primeiro animal a ser domesticado, muitíssimo antes de qualquer outro – muito antes, até, do que o início da própria agricultura, considerado como o princípio da civilização, datado em alguma coisa entre 10 e 12 mil anos atrás.

Apesar disso, o “como” essa amizade nasceu é algo de que os pesquisadores têm uma noção razoavelmente clara. Os humanos, agrupados em clãs, sobreviviam da coleta e, especialmente, da caça. Apesar de não serem muito fortes ou muito rápidos comparados a outros animais, nem terem garras ou mandíbulas muito poderosas, esses caçadores primitivos tinham alguns trunfos que os tornavam particularmente bons. Sua pele era capaz de suar – o que significava que, graças à regulação da temperatura, podiam correr distâncias incrivelmente longas (os cães, por exemplo, só têm glândulas sudoríparas no ânus e na palmilha das patinhas. Sabia?). As presas, ainda que bem mais velozes, no geral não eram capazes de manter suas grandes velocidades por distâncias muito longas – e então nossos ancestrais maratonistas as abatiam, às vezes depois de horas de disputa, em estado de exaustão. Extremamente sociáveis, os humanos caçavam em equipe coesas e bem coordenadas; com inteligência sem paralelo, esses grupos planejavam emboscadas, se valiam do terreno (usando penhascos e estreitos) e criavam toda sorte de estratégia para maximizar o ganho (sim, “economia” existe desde sempre, milênios antes de se tornar uma disciplina formal). A falta de garras e mandíbulas grandes era também suprida com inteligência e engenho, que permitiam produzir ferramentas incríveis (tacapes, facas – de pedra, não de metal, óbvio – e lanças foram as primeiras, provavelmente nessa ordem).

Os lobos eram adversários dos humanos e, mais do que isso, competidores, disputando as mesmas presas. É certo que, exatamente por serem bons caçadores, os humanos produziam em seus acampamentos grandes quantidades de restos de caça; isso atraía predadores e, por certo também, o lobo dentre eles.

Aqui, em algum momento, algo mágico acontece. Os lobos, eternos inimigos dos humanos, aprendem (sim, essa é a palavra) que “perto dos humanos há comida”. Isso faz com que alguns lobos comecem a ir com mais freqüência aos acampamentos humanos... Mas somente lobos muito especiais.

Não se sabe ao certo o que ocorre nesse ponto. O mais provável é que os lobos mais medrosos simplesmente não façam isso, e que os lobos mais agressivos façam, mas acabem atacando os humanos (e, nisso, toda a suposta vantagem de “comida fácil” acaba aqui). Somente um tipo muito especial de lobo se aproxima, e volta outras vezes, e não ataca e não é atacado, e finalmente se torna um “freqüentador” da lixeira do acampamento humano: o lobo que, a um só tempo, é corajoso, mas é menos agressivo.

Esse lobo tão especial, com essas características de “corajoso mas menos agressivo”, é o avô de todos os cães que existem sobre a Terra.

E os cães herdaram essas características tão especiais desse avô.

Em algum momento, os humanos perceberam que aquele lobo em particular não iria atacar ninguém, e param de atirar pedras nele. Em algum momento, alguma criança do grupo acaba por atirar, ao invés de pedras, um pedaço de carne ou de osso para ele. Em alguma noite de especial cansaço, aquele lobo resolve dormir por ali mesmo, perto da lixeira, e nenhum humano o incomoda.

Em algum momento, algum dos humanos percebe que faro e audição do lobo são infinitamente melhores do que os dele próprio, e que o lobo tem o sono muitíssimo mais leve (provavelmente por ter evoluído em campo aberto e desprotegido, e não em árvores como nossos ancestrais pré-humanos); e que, por isso, ele é muito melhor do que nós para detectar a presença de predadores ou de humanos inimigos se aproximando.

Em algum momento, esse lobo está dormindo junto dos humanos, e não mais na lixeira.

Em algum momento (gerações, séculos, milênios, ninguém sabe), humanos e cães estão não só dormindo juntos à noite, mas também caçando juntos durante o dia, combinando as incríveis vantagens de cada espécie, que se complementam com tanta perfeição que parecem nascidas uma para a outra.

O lobo continuou a ser nosso inimigo ao longo dos milênios, mas aquele lobo especial se tornou o melhor amigo que jamais tivemos. Aquele lobo deixou de ser lobo e se tornou cão.

A mudança foi incrivelmente profunda. A própria genética do animal foi alterada; morfologia, alimentação, fisiologia, comportamento, praticamente tudo se alterou no cão para se adaptar aos seus amigos humanos.

Vários estudos afirmam que o nosso sucesso como espécie jamais teria sido tão grande se não fosse a ajuda incomparável dos cães. Nós transformamos os cães, mas eles foram parte fundamental do processo que nos transformou no que somos hoje.

Essas dezenas de milhares de anos de amizade profunda deixaram suas marcas. Análises de tomografia computadorizada provaram que os cães têm pelos donos o mesmo “tipo” de afeto que crianças têm pelos pais: quando vêem fotos ou sentem seu cheiro, são exatamente as mesmas áreas do cérebro que são ativadas num e noutro. Com nenhum outro animal “de estimação” ocorre isso. Sim, é como você já sabia: o cão vê os donos como seus “pais”!

Chimpanzés são muito mais inteligentes do que cães e têm incríveis 98% de seu DNA idêntico ao nosso. Ainda assim, testes comprovam que os cães entendem gestos, expressões faciais e até sentimentos humanos infinitamente melhor do que os chimpanzés.

Existe um estudo polêmico sobre cães que “sabem” o momento em que seus donos, a vários quilômetros de distância, estão saindo do trabalho e começando a volta para casa. As filmagens são realmente incríveis (procure no Youtube por Sheldrake, é emocionante). Ninguém sabe ainda se essa “telepatia” é real, muito menos como funciona, mas quem já teve um cão provavelmente concorda com a hipótese.

Há relatos tocantes de cães que, na Idade Média, abandonavam suas casas para correr ao encontro dos donos no meio do floresta, segundos antes de estes serem atacados por... Lobos. Sacrificando a própria vida, esses cães incríveis eram estraçalhados ao enfrentar, sozinhos, matilhas inteiras para que seus donos pudessem fugir em segurança. Seria o cheiro dos lobos? Algum ruído estranho, a vários quilômetros, que só o cão percebera? Como esse amigo fantástico “sabia” o que estava por acontecer com seu humano?...

Nós moldamos esse amigo adorável à nossa vontade. O fizemos carinhoso, meigo, carente até. O fizemos pequeno para caber em espaços confinados e até em bolsas, grande para intimidar invasores; em formato de salsicha para caçar em túneis, em formato de "galgo" para correr mais do que coelhos e abatê-los; com mordida suave para não estragar a caça recém-abatida, com mordida destruidora para ser nosso guarda-costas; com pernas curtas para caçar ratos em celeiros, com pernas longas para caçar em campo aberto; com focinho longo e olfato aprimorado para encontrar a caça, com focinho curto e mandíbula poderosa para nos proteger.

Nossa “moldagem” do cão foi tão profunda que, veja-se que exemplo curioso, cães pastores nunca atacam rebanhos, de nenhum tipo, mesmo que estejam famintos (e rebanhos são presa natural dos lobos). Mais incrível ainda, os cães pastores ficam extremamente nervosos apenas com o simples cheiro de um lobo. Sim, a amizade é tão profunda que o cão incorporou em seu DNA que deve proteger nossos rebanhos, ao invés de atacá-los; e, mais ainda, incorporou que ele é inimigo de seu próprio ancestral.

É ESSE o nível de amor e de “moldagem” que construímos ao longo dos milênios com esse nosso amigo de quatro patas.

Nós moldamos os cães ao nosso desejo e à nossa necessidade. E eles aceitaram tudo, inclusive essa enorme mudança em sua própria genética.

Até isso eles fizeram por nós.

O cão, no entanto, pagou um preço terrível por essa entrega sem limite aos seus amigos humanos. 

Ele perdeu a capacidade de sobreviver sozinho.

Para se amoldar à nossa conveniência, o cão perdeu praticamente tudo que o lobo tem para sobreviver na natureza.

É nisso que eu penso toda vez que vejo um cão abandonado. Nós o transformamos no que queríamos, fazendo com que, no processo, ele dependesse completamente de nós... E então nós o abandonamos, no frio e na sujeira, para que ele “se vire sozinho”. É esse o nível de traição que praticamos cada vez que abandonamos um desses nossos amigos.

É uma amizade de dezenas, talvez centenas de milhares de anos, que estamos desprezando. É um pacto sagrado que nós, como espécie, estamos vergonhosamente quebrando.

Pense nisso da próxima vez que vir um “cão de rua”... Lembre-se de que ele não “é” de rua, ele ESTÁ na rua porque eu, você, todos nós fizemos isso com ele. Nós violamos o pacto sagrado, traímos sua confiança e o deixamos sozinho.


Pense nisso. 

quarta-feira, 1 de julho de 2009

"Eu Odeio MPB"

Publicado por Braghittoni Ives em 27 Abr 2009 sob: Cultura (editar)

Essa estou devendo faz tempo: nos confins do Orkut há uma comunidade intitulada “Eu Odeio MPB”, da qual orgulhosamente sou integrante… Lá, há uns tempos, escrevi esse texto aqui… É, depois disso, começaram a surgir galinhas pretas na frente de casa periodicamente… :-)

Esta comunidade está errada!!

Sim, a comunidade está errada!! Se somos brasileiros, temos obrigação de gostar de MPB! Afinal, MPB é “legítima” música de nosso país… Alguém decidiu assim, pelo menos… E ele devia saber do que estava falando, certo?

Gostar de outro tipo de música, portanto, é um crime de lesa-pátria. A manifestação cultural, para ser legítima, precisa ser exclusiva de um único país! Vejam o meu exemplo – meu MAU exemplo, diga-se, que precisa ser rapidamente doutrinado: eu gosto de música erudita (que se custuma chamar de “clássica” por aí). É uma manifestação alienígena, nascida na Europa. Então, só quem é europeu pode gostar de erudito! Aliás, as primeiras composições foram registradas na Áustria… Xi, então só quem é austríaco pode gostar de erudito!

Ahn… É, isso é meio complicado. A música erudita nasceu de uma mistura de um sem-número de influências, a maioria com raízes na idade média… Cujas origens se perdem nas tradições ancestrais de vários países… Puxa, nem mesmo quem é austríaco pode gostar de erudito! Que droga! Claro que é um tipo de música que já nasceu internacional (“globalizado”, como gostam de dizer hoje em dia), mas isso não importa. Claro ainda que, em pouco tempo, se tornou mundial, mas isso também não importa. Não é uma “legítima manifestação cultural” de nenhum país!! Então nem mesmo um austríaco pode gostar de erudito!!…

Bom, mas o que eu gosto mesmo é de rock, em suas infinitas vertentes. Imperdoável, não é mesmo? Afinal, todos sabem que o rock surgiu nos EUA. Então, só quem é estadunidense pode gostar de rock. Não importa que, em pouco tempo, o movimento tenha se tornado mundial – o que importa é o lugar onde surgiu, na primeira vez. Também não importa que, desde a década de 1960, pouco rock bom tenha vindo dos EUA (Ramones não conta, ok?), que nunca se recuperaram da “invasão britânica” iniciada com os Beatles… Nada disso importa! O resto é discurso de gente colonizada, originária de país sub-desenvolvido!

Então, bem entendido, só quem é americano pode gostar de rock. Mas o rock é uma mistura do blues dos negros com o country dos brancos… Ai, ai!! Só quem for americano e mulato pode gostar de rock!! Mas os negros eram da costa leste, os brancos da costa oeste… Então, para gostar de rock, você precisa ser americano, mulato e ter nascido exatamente no meio dos Estados Unidos!!…

Nossa, isso tudo está ficando muito complicado… Chega de falar de música. Esse papo dos defensores da MPB já me cansou. Eu vou é pedir uma pizza!…

Ah, claro, eu não posso pedir uma pizza. A pizza é invenção dos italianos, então não tenho o direito de comer pizza. Só um legítimo italiano pode comer pizza.
É, mas a pizza é basicamente uma torta de tomate, e o tomate é originário… Das américas, então nem os italianos podem comer pizza!! Terão de comer a massa de trigo pura mesmo. Hum, mas o trigo é originário do Oriente Médio… Xi, os italianos vão ter de comer a pizza sem tomate e sem massa!!…

"O Grande Irmão a tudo vê", ou como até eu fui assistir BBB


Publicado por Braghittoni Ives em 23 Mar 2009 sob: Cultura, Comportamento (editar)

Eu iria tratar do filme Wacthmen… Mas ele não merece. Leia o texto anterior, pense naquilo tudo bem piorado e você entendeu o que é o filme. Em resumo, já tenho meu candidato para o prêmio Framboesa de Ouro de pior filme do ano. E também para pior roteiro adaptado, pior ator (o que é aquele Ozimandias com cara de Clodovil?!…), pior atriz (precisa explicar?…), pior trilha sonora…

Falemos, então, do tsunami televisivo de todo começo de ano: “Big Brother”.

Tenho um amigo, também escritor, que costuma brincar dizendo que o talento verdadeiro se mostra quando conseguimos escrever sobre algo que não conhecemos; “escrever sobre aquilo que se domina é fácil”, diz ele, “bom mesmo é quem consegue escrever sobre aquilo de que não sabe nada”. Claro que é uma piada, mas é exatamente o que vou tentar fazer hoje: escrever sobre algo de que não conheço quase nada. Não só porque é o assunto da moda, mas também porque minha “ex” está lá dentro (fazer o quê… :-)… ) – além, é claro, do insopitável prazer de ser do contra (já explico o porquê…), então vou tentar expor a visão de alguém que nunca antes tinha assistido aquilo.

O motivo do nome deve ser de conhecimento geral: o “Grande Irmão” (“The Big Brother”) é como é chamado o dirigente máximo da Eurásia, país fictício de que a Inglaterra faria parte na apavorante ficção de George Orwell, “1984”. As circunstâncias em que essa obra prima foi escrita também são bem conhecidas: depois de vencido o nacional-socialismo de Hitler, o mundo se entorpecia de felicidade em achar que a democracia triunfara definitivamente; o livro de Orwell era um assustador alerta de que o socialismo estava longe de ser extirpado – como a URSS demonstrava de forma bem convincente. Um dos mecanismos de que o Estado totalitário do Grande Irmão se utilizava para controlar a população eram as “teletelas”, parecidas com televisores exibindo propaganda socialista 24 horas por dia, mas que também fiscalizavam os cidadãos, observando e filmando cada movimento que faziam e dando ordens o tempo todo a cada um, individualmente – daí o motivo do nome.

A primeira observação que faço então é que esse nome, apesar de ser mera metáfora, está errado. Os participantes, como em 1984, são mesmo observados o tempo todo, mas não recebem ordens. As câmeras só observam; não há ordens para tudo e para todos, nem vindas delas nem de lugar algum – o que torna tudo bem diferente do mundo criado por Orwell. Ainda bem, diga-se!

Outro nome que me parece equivocado: aquilo não é um “reality show”. O tal BBB pode ser tudo, menos um “espetáculo de realidade” – porque o que é filmado é tudo, menos realidade. Quer coisa mais irreal do que ficar semanas trancafiado numa casa, cercado de pessoas que você nunca viu? Sem poder sair, sem nenhum acesso ao mundo exterior? O que isso tem de “realidade”? Bom, talvez você tenha tido experiências próximas a essa se já viajou para Ubachuva ou São Sebastrovão e ficou preso em casa por tempestades intermináveis (:-) ), mas para a maioria dos mortais isso está bem longe de uma “exibição de realidade”.

Mas indo ao que interessa: é incrível o quanto as pessoas abominam esse programa – ao mesmo tempo em que os índices de audiência são sempre incrivelmente altos. A matemática me obriga a concluir que boa parte desses críticos são também, ao mesmo tempo, ávidos espectadores.

Não vou entrar na discussão sobre se o programa é bom ou ruim; não só porque já há milhares (talvez milhões) discutindo exatamente isso, como porque não é isso que interessa: cada um que saiba por si se deve ou não assisti-lo. A grande questão é, justamente, a liberdade de ver. Essa merece ser discutida e defendida.

Há aqueles que dizem “o programa é uma droga, então eu decido que eu não vou ver”. Ótimo. O grande problema é que há quem diga “o programa é uma droga, então quero decidir que ninguém no mundo tenha o direito de decidir se vai ou não ver”. São poucos os que têm coragem de colocar as coisas em termos tão claros, mas é exatamente isso o que muitos defendem. E é isso que tem de ser combatido.

Essas pessoas levaram muito a sério a idéia do “Grande Irmão”. Tão a sério que querem se transformar nele. “EU acho que BBB é ruim, então EU decido que ninguém mais pode assistir” – socorro! Quem lhe deu esse direito, Cara Pálida? Quem o nomeou ditador do mundo? Tantos anos passados depois de escrito 1984, depois do próprio ano de 1984, e o livro se mantém cada vez mais atual.

Os argumentos para defender essa proposta de censura são mais bizarros do que dia de paredão (viu? Estou aprendendo!). Há quem diga que “as crianças assistem”, e se é ruim, então “deveria ser proibido” (olha o Grande Irmão aí, gente!!), porque os pais “não conseguem controlar os filhos”. Traduzindo: algumas pessoas não aceitam que são responsáveis por criar os filhos que tiveram; eles querem que a televisão os crie. Então, ao invés de decidirem o que os filhos podem ver, acham que têm o direito de decidir o que o mundo inteiro pode ver. Que pavor! Nem Orwell pensaria numa sandice como essa!

Outros seguem uma linha diferente: as televisões seriam obrigadas a produzir e emitir programas “de qualidade”, porque são “concessão pública”. A idéia já nasceu errada: “qualidade” na opinião de quem? Quem será o gênio eleito para decidir? Não deveria ser cada cidadão decidindo por si mesmo?… Ah, claro… O cidadão só poderia “escolher por si mesmo” se tivesse “educação adequada”… Estranho: ele pode eleger o Presidente, mas não pode eleger o que quer assistir na televisão.

Pior ainda é o próprio conceito de “concessão pública”, um resíduo da época da ditadura criado para que só os “amigos do rei” fossem contemplados com canais de TV e de rádio, a fim de que neles só fosse dito o que Sua Majestade quisesse. A majestade mudou de nome, mas a idéia continua útil: por ser “concessão pública”, a TV só deveria mostrar o que “alguém” quer, não o que o próprio cidadão decidiu assistir. O Grande Irmão agradece!

Variação do mesmo tema é que a TV deveria ter programação “cultural”. Esse é uma mistura dos dois anteriores: a educação que a escola não deu seria, na mente dos gênios de plantão, responsabilidade da TV; além disso, deveria mostrar o que “alguém” decidiu que era “cultural” (lembram dos manifestos de Goebbels determinando o que era e o que não era “arte” para o 3º Reich??…). Bem estranho isso… Bem digno do Grande Irmão. Se o cidadão decide que quer passar seu tempo de descanso caminhando numa praça, ninguém exige dele que esse passeio seja “cultural”; mas se decide que, ao invés de ir a uma praça, vai descansar ficando em casa e assistindo BBB… Pronto, abriram-se as portas do inferno.

Em resumo: a única forma de censura que se pode admitir é o controle remoto. O resto é conversa das viúvas da ditadura, ou de aprendizes de Grande Irmão. :-)

E por fim: boa sorte, Fran!! Estou torcendo por você!! E votando também, descobri que dá pra votar pela Internet!!

Watchmen e os Esquecidos


Publicado por Braghittoni Ives em 09 Mar 2009 sob: Cultura (editar)

É, o BBB vai esperar mais um pouco. O assunto do momento é o filme que acaba de estrear, levando para as telas “a mais celebrada HQ de todos os tempos”. E aí, toda a crítica cinematográfica divide o universo inteiro em dois públicos: os leitores de HQ, automaticamente classificados como “fãs radicais de Watchmen”, ou “nerds” mesmo; e o público em geral, que nunca ouviu falar disso – e que nem sabe o que é “HQ”. Tudo gira em torno de saber se os “fãs” vão considerar o filme fiel o bastante à sacrossanta HQ, e se quem não a conhece vai gostar do filme.

Bom, HQ é, apenas, “história em quadrinhos”. Quem quer dar uma de exibido fala “graphic novel”, mas trata-se simplesmente do bom e velho gibi – que talvez mereça ser chamado de “nona arte”, por combinar literatura e pintura.

Enfim, fomos todos divididos nesses dois grupos – o que me leva a reclamar por não estar representado: e quem gosta de HQ, leu Watchmen logo no lançamento… e não gostou? Fomos esquecidos, pelo jeito! Ou talvez eu seja o único no mundo (:-) ); se for, é um motivo a mais para escrever esse texto. Então, vou falar primeiro da HQ, depois do filme que a retrata – e fique tranqüilo, não vou estragar nenhuma surpresa nem de um, nem de outro (odeio quando algum crítico faz isso!).

Indo direto ao ponto: Watchmen é uma droga. É ruim, bem ruim, e o filme conseguiu potencializar tudo que a HQ tem de pior. O primeiro problema insuperável de W é que já nasceu velha – mais do que isso, nasceu obsoleta. Lançada em 1986 e ambientada no ano anterior, seu pano de fundo é a Guerra Fria… Que, nessa época, já era quase lembrança (veja quantas críticas da Internet falam que foi a época do “auge” da Guerra Fria!!…). O socialismo estava em fase final de agonia, depois de décadas de miséria absoluta e sofrimentos indizíveis para a população que o suportava. A URSS seguia um processo firme e gradual de abertura (na política interna) e aproximação com o Ocidente (na política externa); e, em 1989 (bem pouco tempo depois, portanto), os regimes socialistas do mundo inteiro desmoronavam de vez, derrubados por revoltas populares quase simultâneas. Sem, lembremos, que fosse dado um único tiro pelos países democráticos.

Mas divago. W, na falta de outra coisa, usou essa idéia requentada para criar, numa “realidade alternativa”, “um mundo à beira do apocalipse” de guerra nuclear. Aliado a isso, tem pretensões de gerar “discussões morais profundas”, quando na verdade segue, apenas, a cartilha rasteira de que “os fins justificam os meios”. Nem vou entrar na discussão do quanto isso é inaceitável; vou só chamar a atenção de quão pouco profunda é essa “discussão moral”. Ora, bastou isso para que W fosse considerada pela Times uma das “100 melhores ficções” já escritas?! Essa lista é bastante capenga, e para provar não é preciso nada além de ver que ela inclui o besteirol de W, mas não tem um único livro de Machado de Assis (veja a lista completa aqui: http://www.time.com/time/2005/100books/the_complete_list.html) . Enfim, essa é a “profunda discussão moral” que conseguimos de W? É só isso que surge de tanta pretensão?

Aliás, pretensão é o que mais sobra em W, desde sempre apresentada como “a HQ de heróis que iria acabar com as HQs de heróis”. Quanta arrogância!

A precariedade da “profunda discussão moral” chega ao auge de defender que seria lícito “matar x para salvar 10x” – e não vou explicar mais para não descumprir a promessa sobre não revelar o conteúdo da história. Vou apenas sugerir que você analise, lendo ou vendo o filme, até onde vai a tal “discussão moral”.

W também é terrivelmente lenta, arrastada mesmo. Nunca entendi o porquê; eu achava que era, apenas, parte daquela pretensão toda. Mas é mais: em recente entrevista do responsável pelas ilustrações, Dave Gibbons (essas, reconheço, excelentes), admitiu que inicialmente só havia material para seis publicações… E tiveram de “dar um jeito”, por pressão sabe-se lá de quem, de fazer W render doze. Ou seja, metade de W é pura encheção de lingüiça!

O pior de tudo na história, porém, é a completa falta de sentido, especialmente do final, que é seu ponto mais importante: toda aquela moral obtusa é defendida através de um enredo que, ao fim, se mostra totalmente sem pé nem cabeça. É óbvio que ficção (e HQs de heróis em especial) não precisa ter nenhuma verossimilhança; tanto quanto é óbvio, porém, que ela precisa ter um mínimo de lógica, de sentido. Leia a HQ e veja depois se você não concorda comigo: se o(s) personagem(ns) fizesse(m) aquilo, o resultado seria mesmo aquele? Ou seria exatamente o contrário?

Simplificando bastante: se alguém está com o dedo no gatilho e leva um susto, o que acontece? Ele puxa o gatilho no susto… ou vira “amiguinho” de quem estava na mira? Ora, faça-me o favor!
A “solução” proposta pelo final é, penso, um completo absurdo, mesmo dentro das premissas da HQ. O que começou com uma enorme pretensão se encerra com uma enorme bobagem; tente imaginar aquela situação… E você também vai concluir (acho) que a tal “solução” iria produzir o efeito exatamente oposto ao que a HQ tenta empurrar goela abaixo do leitor. História inteligente (seja em HQ, filme de heróis ou em qualquer coisa) exige, no mínimo, um pouco de sentido nas “relações de causa e efeito”; e W, no desejo de surpreender (ou de pretensiosamente fazer “discussões morais”), faz o exato oposto.

O filme piorou a HQ. Semana que vem falo dele.