sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Diários da Resistência - 13 de março de 2017





Diários da Resistência, 13 de março de 2017.

Não sei se alguém vai ler isso, mas quero registrar mesmo assim. Pode ser culpa, ou esperança, ou medo, chame como quiser. É difícil escrever no escuro, mas sair dos subterrâneos é perigoso demais. Hoje faz 3 meses da aprovação da (ai, meu Deus!) PEC do Fim do Mundo, então acho que devo isso a mim mesmo.

Um pouco de luz aqui ajudaria, mas mesmo acender uma vela é um risco excessivo. Os Tucanossauros, pavorosos vigias robóticos de tecnologia extra-terrestre, patrulham cada palmo aqui de Cotia. Os mais perigosos, claro, são aqueles com aparência de pterodátilo; eles têm a face do José Serra para serem ainda mais assustadores e gritam “quem assume é o Aéeeeecio!!!” quando despencam dos céus sobre suas vítimas. Só os esgotos ainda são seguros, mas há boatos de que, em São Paulo, já há Tucanossauros específicos para patrulhar esse último reduto da Resistência. Como fomos tolos em achar que o PSDB era praticamente igual ao PT! Ingênuos, nós os chamavam de “socialistas azuis”. Quem poderia adivinhar que eles estavam mancomunados com os reptilianos?

Temer-o-Temível, claro, é um desses reptilianos; parece até que é um dos chefes deles. Um dos líderes da resistência chegou a perguntar uma vez “ué, mas ele não era vice da Gilma Rocefe?...” Nunca mais foi visto. Tempos de desespero pedem medidas desesperadas.

Tento ser condescendente comigo mesmo. Achávamos, com base em séculos de história, com base na lógica e nos fatos, com base em TODOS os países bem-sucedidos no mundo, que o liberalismo era a saída, que a livre concorrência e o direito de propriedade deveriam ter respeito absoluto, que o estado precisava ser radicalmente diminuído. Como estávamos errados! Achávamos, suprema heresia, que a PEC do Fim do Mundo, na verdade, era muito pouco, ainda que fosse um bom começo. Afinal, ela não diminuía o estado; ela não diminuía o gasto do estado; ela nem ao menos impedia o estado de gastar mais do que arrecadava! Ela, APENAS, determinava que o gasto colossal do estado deveria ser igual ao do ano anterior, ainda que com várias exceções e ainda que com a correção da inflação.

Achávamos, nós idiotas, que isso na verdade adiantava pouco, porque é o próprio estado que tem o monopólio da moeda e o monopólio dos juros (sim, você consegue acreditar que eu, enfiado aqui nesse esgoto, vendo o mundo desmoronar enquanto fujo dos Tucanossauros, cheguei a acreditar que o BACEN deveria ser extinto?!?...), então o próprio estado determina quanto vai haver de inflação... Bom, mas achávamos que era um bom começo, que era melhor do que nada.

Bem, isso era o que achávamos. Só começamos a perceber que algo estava realmente errado quando os prédios começaram a derreter. Foi na Av. Paulista que começou, alguns dias depois da aprovação da PEC do Fim do Mundo, o horror que selaria nossos destinos: os prédios estavam derretendo diante de nossos olhos! Em menos de três dias, tudo que restava dos edifícios era o concreto liquefeito inundando as ruas. No quarto dia os polos magnéticos da Terra foram misteriosamente invertidos e, nesse processo, as tempestades solares (amplificadas pelos reptilianos, claro) fustigaram impiedosamente nosso planeta por várias horas. Muitos pereceram pela radiação; as plantações e os rebanhos foram devastados. Os mares começaram a evaporar na segunda semana, seguidos dos rios no mês seguinte. As terríveis máquinas de guerra dos invasores alienígenas destroem o pouco que ainda resta. Os líderes da Resistência não falam para não causar ainda mais pânico, mas todos sabem que até a rota da Terra foi alterada e estamos, neste exato momento, nos afastando do Sol e começando a mergulhar no espaço vazio. As únicas coisas que permanecem iguais e intocadas, óbvio, são o imposto sindical, o fundo partidário, o foro privilegiado e o fato de que o Lulla continua solto. (É mais fácil alterar a rotação do planeta do que mexer em qualquer uma dessas coisas, como até os reptilianos descobriram).

Como poderíamos imaginar que era a gastança alucinada do estado que impedia tudo isso? Como poderíamos saber que era com o estado criando dívidas impagáveis e gerando déficits absurdos para nossos filhos e netos que se evitava de prédios derreterem, do mar evaporar e da Terra se afastar do Sol?


Bem, nós deveríamos. Agora é tarde. 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Meu Depoimento para o Escola Sem Partido

Segue o depoimento que mandei para o ESP. E eu sou só um entre milhões...

Escola Sem Partido – Depoimento


Prezados,
Acompanho e admiro o trabalho do Escola Sem Partido há muito tempo. Acredito que, no longo prazo, a luta pelo fim da doutrinação nas salas de aula é o que de mais importante pode haver para impedirmos que o Brasil afunde no totalitarismo.
Claro, parte da estratégia de quem pratica lavagem cerebral contra crianças é ou dizer que isso não existe, ou tentar minimizar a prática.
Eu sou a prova viva de que eles mentem. Para quem viveu a doutrinação, chega a ser patético ouvir que isso “não existe”, ou que “não é tão grave”, ou que “é questão de opinião”.
Este é o meu depoimento.
Estudei o que na época se chamava “primário” em escola pública, em meados dos anos 70, e a partir do “ginásio” num colégio de padres jesuítas. A “Teologia da Libertação” fazia com que os dirigentes do colégio considerassem questão de fé a doutrinação marxista desde o mais cedo possível. Os professores, por sua vez, eles próprios também doutrinados desde sabe-se lá quando, atendiam alegremente a exigência – e o nível do ensino era bastante baixo, mas o nível de doutrinação era extremo. Não aprendíamos nada além de “uma visão marxista” de cada matéria, ao invés de a própria matéria.
Lembro-me bem que até as aulas de matemática (sim, até elas!) eram moldadas com coisas como “considerando-se um latifúndio improdutivo de x m2 invadido pelo MST, quantas bravas famílias de sem-terra serão legitimamente contempladas...” Aula após aula, dia após dia, ano após ano, nada escapava de um prisma marxista sobre todas as matérias. Todas, em tudo, o tempo todo. E ai daquele que não repetisse o discurso oficial!
“As Veias Abertas da América Latina” e “História da Riqueza do Homem” eram os livros básicos e onipresentes de história e geografia, e nenhuma fonte “não autorizada” era admitida. Mais do que isso: esses livros também eram usados para literatura, interpretação de texto, atividades extra-classe, tudo. Os próprios manuais dessas disciplinas eram também tão “engajados” quanto. A vulgata marxista era o começo, meio e fim de todo o processo de ensino.
O uso da autoridade na imposição de idéias era a tônica: ensinava-se o marxismo como sendo uma verdade científica e incontestável, ao mesmo nível de “científica e incontestável” conferido à lei da gravidade do professor anterior, como da reação química explicada pelo professor que viria depois; e, claro, quem não fizesse a reprodução fiel do discurso ensinado era não apenas discriminado e ridicularizado, mas ameaçado ou efetivamente reprovado.
Salvo casos muito excepcionais, não há criança que consiga se proteger disso. Esse processo de moer cérebros é pavoroso, mas eficiente: a grande maioria sairá dele como militante autômato, com pouca ou nenhuma capacidade de raciocínio crítico. Há, hoje, milhões de adultos-zumbis que, inteligentes em outros aspectos, comprovam a validade da técnica em tudo que se relaciona a política ou economia.
Foram anos difíceis, sempre sob a ameaça de reprovação. Ainda assim, jamais serei grato o bastante a Henry Maksoud e sua Revista Visão, que adquiri o hábito de ler bem antes de ser submetido ao moedor de cérebros – e que me mostrou o mundo sob a óptica das idéias da liberdade, da pluralidade de pensamentos, do uso efetivo do raciocínio sobre questões sociais (sim, acredito que vai haver gente desonesta o bastante para comparar a “leitura de textos que encontrei por conta própria” com a doutrinação que descrevo). Boa parte dos meus colegas não teve a mesma sorte e, ainda que a realidade comprove os erros e os absurdos diariamente, continuam até hoje acreditando no discurso dos doutrinadores escravocratas quase com a mesma fé que acreditam na gravidade ou na classificação ácido/base.
Isso não é uma opinião, não é uma hipótese, não é uma teoria. Isso são FATOS. Isso foi minha vida. Estou aqui para contar a quem queira ouvir.


R. Ives Braghittoni
Bacharel, mestre e doutor em Direito

Advogado e professor

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Impedimento, renuncia e o caos que o PT criou

Estamos vivendo os dias imediatamente após as históricas manifestações de 15/03/15; apesar do esforço de alguns para desqualificar tanto os números quanto os próprios participantes, já se tem certeza de que foram as maiores manifestações populares da história do Brasil. Diferentemente do que ocorreu em junho de 2013, aqui havia uma pauta bem clara: protesto contra o PT, protesto contra o governo Dilma, protesto contra seu projeto bolivariano (coitado de Simon Bolívar, que era um liberal – olha no quê foram transformar seu nome!...) de poder a qualquer custo, protesto contra o estelionato eleitoral. Em função disso, e das inúmeras informações desencontradas sobre os aspectos jurídicos do “impeachment” que têm circulado, creio que cabem alguns esclarecimentos sobre a situação e sobre a lei.
Em 2013, havia uma insatisfação difusa, mal articulada, mas nem por isso menos legítima. O estopim, como se sabe, foram manifestações iniciadas pelo “Movimento Passe Livre”, um grupo controlado pelos partidos subalternos ao PT (PSOL, PCB e, em especial, PSTU – ainda que, veja-se a ironia, informem em seu site “não somos filiados a nenhum partido ou instituição”) cujo objetivo declarado era enfraquecer o governo estadual de São Paulo. O movimento se espalhou pelo país todo, de maneira incontrolável, e toda tentativa partidária de pautá-lo teve repúdio instantâneo (há múltiplos vídeos no Youtube mostrando isso – alguns não muito polidos mas bastante ilustrativos, em especial aquele em que há uma eloqüente rima para a sigla “PSTU”). O povo, quando tratava dos famosos “20 centavos”, estava na verdade protestando contra o persistente aumento da inflação, bem como contra a crise econômica que, já ali, começava a dar sinais de quão grande seria.
Temos, então, o caso do “Petrolão”, já considerado não apenas o maior caso de corrupção da história brasileira, mas o maior do mundo. Tanto os números quanto a desfaçatez dos envolvidos são estarrecedores. A Sra. Dilma Rousseff, como é sabido, foi presidente do conselho de administração da Petrobrás por longo período, inclusive “no que se refere” às denúncias mais importantes, feitas pelos próprios empreiteiros denunciados.
A Lei das Sociedades Anônimas (Lei 6.404/75) é muito clara a respeito (art. 138): o Conselho é, ao lado da diretoria, o responsável direto por sua administração, além de ter o dever de fiscalizá-la (arts. 138, 139 e, especialmente, 142). Já o estatuto social da própria Petrobrás não deixa dúvidas: seu artigo 17 determina expressamente que “a Petrobrás será dirigida por um Conselho de Administração, com funções deliberativas, e uma Diretoria Executiva”. Pretender, portanto, que a atual presidentA não tenha responsabilidade em tudo que ocorreu na empresa sob sua administração, ou mesmo que ela não soubesse que 88 BIlhões de reais tenham sido roubados, é atentar não só contra a inteligência do brasileiro, mas também contrariar a letra expressa da lei e do estatuto da Petrobrás.
Já o impedimento (“impeachment”) é disciplinado pela Constituição Federal (arts. 85 e 86) e por lei específica sobre o assunto (Lei 1.079/50). Em ambas as normas, fica evidenciado que somente o ato praticado durante o exercício da presidência pode justificar o “impeachment”. Ora, mas permitir a continuidade do “Petrolão” e ainda manter Graça Foster no cargo não caracteriza a continuidade do ilícito?...
Essa é, basicamente, a tese defendida pelo Professor Ives Gandra em seu parecer (link : http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2015/02/1584267-ives-gandra-da-silva-martins-a-hipotese-de-culpa-para-o-impeachment.shtml ). Ali, o professor esclarece que houve crime de responsabilidade, já devidamente caracterizado, pelas hipóteses de culpa (negligência, imprudência, imperícia, omissão), independentemente de as investigações detectarem se houve ou não dolo. Diz ele: “como a própria presidente da República declarou que, se tivesse melhores informações, não teria aprovado o negócio de quase US$ 2 bilhões da refinaria de Pasadena (nos Estados Unidos), à evidência, restou demonstrada ou omissão, ou imperícia ou imprudência ou negligência, ao avaliar o negócio. E a insistência, no seu primeiro e segundo mandatos, em manter a mesma diretoria que levou à destruição da Petrobras está a demonstrar que a improbidade por culpa fica caracterizada, continuando de um mandato ao outro.”
A tese é polêmica e merece reflexão. O jurista Miguel Reale Jr., tão brilhante quanto insuspeito, discorda dela (veja aqui: http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,renuncia-ja-imp-,1646272). Mas, dado o desastre da administração petista e seu escancarado envolvimento com o “Petrolão”, sugere outra saída: a renúncia.
A esse imbróglio, trago dois acréscimos: se comprovadas as denúncias do Sr. Barusco, de que a campanha presidencial contou com mais de 200 milhões de reais de dinheiro de corrupção, o caso não será de “impeachment”, mas de cassação da candidatura. É o que determina o artigo 30-A, § 2º, da Lei 9.504/97: “comprovados captação ou gastos ilícitos de recursos, para fins eleitorais, será negado diploma ao candidato, ou cassado, se já houver sido outorgado.” Entenda-se que não se trata, aqui, de impedimento da presidente, mas cassação da própria candidatura – e, por ser da candidatura, o vice-presidente seria cassado também. É hipótese que permanece no horizonte.
Mais ainda: a Lei 9.096/95, que é a lei dos partidos políticos, prevê, em seu art. 28, as hipóteses em que a Justiça Eleitoral deve cancelar o registro civil e o estatuto dos partidos. É minha opinião que o PT já deveria estar sendo investigado há muito tempo pelas suas conexões tanto como subalterno do Foro de São Paulo (incisos I e II) quanto como chefe da organização escancaradamente paramilitar chamada MST (que confessa, orgulhoso, ter até recebido treinamento militar das FARC – inciso IV). Afora isso, porém, se comprovadas as aludidas denúncias do Sr. Barusco, dentre outras feitas na investigação do “Petrolão”, o caso será de cassação do registro do PT pela alínea III do citado artigo. Se “deixar de prestar contas” à Justiça Eleitoral já justifica a cassação, que se dirá de usar do poder para desviar mais de 200 milhões de reais para uso em campanha eleitoral?...
Não há como saber o resultado das investigações, nem se alguma das hipóteses acima vai encurtar o mandato da Sra. Rousseff. O máximo que eu arriscaria seria dizer que absolutamente não acredito na hipótese de renúncia, em que a Sra. Rousseff iria abrir mão do poder em prol do bem do país: o credo do PT é o poder pelo poder – e uma vez entendido isso, percebe-se qual absurdo é pretender que haja ali alguma preocupação com “o bem do país”.
Mas isso tudo é, apenas, o curto e médio prazos.
A longo prazo, a questão é outra. O que realmente merece atenção não é o destino do mandato da Sra. Rousseff; a questão é que a crise econômica atual, muito mais do que a política, pode ter como efeito didático a demonstração do que os liberais sempre defenderam: as idéias do PT levam inexoravelmente ao desastre.
Isso é o fundamental. Não adianta a Sra. Rousseff ser impedida, ou mesmo cassada, se a seguir o povo eleger alguém com ideário semelhante. Seria trocar o elenco mas manter o roteiro. Por mais honesto que fosse o PT (desculpem, eu sei o quanto isso soa risível!...), por melhores que fossem suas intenções, nada mudaria o fato: estamos numa profunda crise econômica por causa, exclusivamente, do ideário que o PT defende no campo econômico.
Espero que isso fique cada vez mais claro na mente do público em geral. Espero que o brasileiro médio finalmente entenda que o que “tirou milhões da miséria” não foi o governo Lula, foi a situação internacional (estouro no preço das commodities, demanda da China, altíssima liquidez). E, para quem duvida, não precisa acreditar em mim: basta comparar o quanto a pobreza foi reduzida no Brasil com o quanto ela foi reduzida no resto do mundo, em especial em países com economia semelhante à nossa, nesse mesmo período. Isso vai deixar evidente que a pobreza no Brasil caiu apesar do governo do PT e não “graças” a ele. Independentemente do que ocorra na política, teremos anos terríveis pela frente em âmbito econômico; e, se esse fato fundamental – o receituário econômico do PT como origem e causa da crise – for entendido e compreendido pela maioria do povo (e é o que parecem mostrar as pesquisas de opinião, com aprovação do governo atual na casa de um dígito), então iremos sair dessa crise não apenas mais fortes, mas mais sábios para evitar que outra semelhante aconteça novamente. 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Ironias da Vida

Com a onda de protestos que se iniciou duas semanas atrás, eu passei a publicar em redes sociais esta pequena série de "Ironias da Vida"...

Vou deixar aqui para manter o registro :-)


 
Capítulo I

Nós passamos A VIDA INTEIRA ouvindo os petistas repetirem que “a polícia é o instrumento dos donos do poder”, que ela serve para “manter o povo no seu lugar” e para a “perpetuação no poder” da “elite política”. Por MILHÕES de vezes eles repetiram Foucault e “Vigiar e Punir” e como o “aparelho repressor” serve “à manutenção do Estado opressor” e Foucault de novo e como “a violência policial” serve “à classe dominante” e “sufoca os movimentos populares” e “a voz das ruas” e...

                                   Ontem, milhares de manifestantes tentaram invadir o Itamarati e outros palácios do governo. POR FAVOR, senhores petistas, eu gostaria que, AGORA, vocês repetissem essa ladainha que vocês declamaram a vida inteira. Repitam-na agora, mais uma vez, enquanto assistimos de novo as cenas de ontem!

 

Capítulo II

Durante nada menos do que OITO ANOS seguidos os petistas urraram “Fora FHC!” – e diziam que isso era “exercício da democracia”, “direito de manifestação”, “a legítima voz do povo”, “a vontade que vem das ruas”, etc.

Agora, parcelas grandes das manifestações populares dizem “Fora Dilma”. Qual a opinião do PT a respeito?

“Golpe!”, “decidam nas urnas!”, “baderneiros fascistas!”...

...

Ah, que divertido assistir a hipocrisia dessa turma se expor assim, tão escancarada...

 

Capítulo III

Já tem petista dizendo que, para “manter a ordem” e “garantir a Constituição”, não bastam balas de borracha e bombas de efeito moral: estão defendendo “o Exército nas ruas” e munição real, tiro de fuzil mesmo, contra “esses golpistas”.

Quem diria, o governo do PT, que já estava tão idêntico à ditadura militar em âmbito econômico (particularmente igual ao “desenvolvimentismo Geisel”) agora também está ficando igual até no discurso!!...

PT, PT... Quem te viu, quem te vê...

Mais um cappuccino, por favor!

 

Capítulo IV

Aula de meditação pluri-holístico-zen-taoístico-transcendental com Tio Ives

 

Fique em posição de lótus (é, dói as costas e dá câimbra no dedão do pé, eu sei). Respire profundamente... Expire bem lentamente...

Imagine uma névoa (azul, claro) lentamente descendo e envolvendo todo o seu corpo...

Agora, bem concentrado...

Beeeeem concentrado... Imagine o quanto o PT estaria berrando se fosse QUALQUER outro partido que estivesse no poder durante as manifestações populares!!...

Imagine se fosse com FHC!!...

Ah, a eterna dupla moral do PT!...

 


Capítulo V

“Ah, que lindo, o povo se manifestando, o povo foi às ruas, a voz do povo, ai que lindo, saímos da inércia, o gigante despertou, o povo, o povo, o povo... Epa! Peraê! O povo está reclamando de nós!! De NÓS!! Como se atrevem? Nós criamos o Brasil maravilha que aparece na TV!! Nós é que acabamos com a miséria por decreto!! Nós é que sabemos o que é melhor para eles!! Povo de baderneiros! Povo de direitistas!! Povo de fascistas!!”

 

 Capítulo VI

E aí, será que já dá pra dizer que o projeto de poder perpétuo do PT “foi pro vinagre”? Será que Lulla vai mesmo substituir Dilma na sucessão, já que até dentro do PT ninguém mais duvida do desastre que foi o governo dela?

Ou será que vão usar as manifestações como desculpa para dar um golpe e implantar a ditadura que sempre quiseram?...

  

Capítulo VII

“Manifestação? Que manifestação? Não existe manifestação nenhuma. Não há provas de que exista alguma manifestação! É tudo invenção da mídia golpista!

Aliás, esses manifestantes que não existem são todos agentes pagos pela CIA!!...”

 

Capítulo VIII

Então tá combinado: podem falar o que quiser, mas nunca, NUNCA mais digam que o povo brasileiro é bundão, beleza?

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Lançamento do Novo Corvette


Sim, finalmente foi lançada a 7ª geração do Corvette! As formas arredondadas deram lugar a muitos ângulos e linhas retas, com um resultado final bastante agressivo, quase futurista. A mítica nomenclatura “Stingray” também está de volta (ao contrário do vidro traseiro bipartido, como muita gente especulava). A plataforma é toda de alumínio, substituindo o aço (das atuais versões básicas) e, segundo a fábrica, tem rigidez estrutural 60% maior.

Na frente, destaque para o extrator de ar no capô, que é funcional (ou seja, “não é enfeite”) e deixa o ar quente do motor sair e “correr” pela parte superior do carro, aproveitando sua menor densidade (solução típica de carros de competição, e inédita em carros de rua). Ainda mais baixo do que o antecessor, sua lateral ficou com aparência nitidamente mais “afiada”. Logo à frente das caixas de roda traseira há dois respiradores, também funcionais: um leva ar fresco para o diferencial e o outro para a transmissão.

A traseira é o ponto mais polêmico, mas a atualização é bem vinda (a mim, só causou estranheza a saída quádrupla de escapamento que, “amontoada” no centro, parece deixar o visual ali um tanto pesado). As lanternas abandonam o tradicional desenho redondo e adotam um trapézio tridimensional de leds, em boa combinação com o desenho anguloso do carro todo.

O interior recebeu mudança ainda mais drástica, atendendo a uma velha reclamação dos fãs: de algo pobre e comum, típico de carros de categorias bem inferiores, para um habitáculo digno do Corvette. Os bancos, outra reclamação eterna, parece que agora são também compatíveis com o que esse esportivo representa; só o uso real vai poder confirmar, mas o desenho ao menos é excelente. São duas opções (uma “GT”, outra para competições), ambas belíssimas e construídas em liga de magnésio (material caro, mas resistente e extremamente leve). O destaque maior vai para os instrumentos, em particular a tela central que muda o desenho conforme a configuração de marcha escolhida.

São cinco opções de configuração no “drive mode selector”: “weather”, para chuva intensa ou neve; “eco”, para máxima economia de combustível; “tour”, para conforto em longas viagens; “sport”, em que todas as funções ficam mais “afiadas” para maior desempenho; e “track”, para desempenho máximo e uso exclusivo em pistas (ou assim supõe-se :-) ). Essas configurações alteram doze parâmetros do carro, incluindo a citada tela central, a rigidez dos amortecedores magnéticos, as respostas do acelerador e do volante, do próprio motor e até do diferencial com limitador de deslizamento.
 
O motor mantém o comando de válvulas no bloco (solução tida como antiquada, mas que é confiável, além de mais barata e mais “baixa” – em termos de centro de gravidade – do que os comandos no cabeçote), mas adota inovações interessantes: injeção direta de combustível, comando de válvulas variável e desligamento de cilindros (tornando-se um “4 cilindros” quando há pouca demanda de potência). O resultado, espera-se, será um carro com desempenho de super esportivo (6,2 litros, 450 cv de potência e 450 lb/ft de torque) e consumo semelhante a sedãs médios. Mais informações sobre a história do magnífico motor “Chevy V8 Small Block” e os motivos de a GM manter o comando no bloco nesta excelente reportagem aqui:
http://autoentusiastas.blogspot.com.br/2010/10/corvette-c4-zr1-1990-1995-no-coracao-da.html

O rumor sobre a aptidão para rodar com E85 (85% de etanol ou metanol e 15% de gasolina, comum nos EUA), pelo jeito, era só boato mesmo: não há nenhuma referência a isso em todo o material divulgado até agora.

O câmbio é manual (obrigado, Senhor!!!) em inédita configuração de sete (sim, sete) marchas e, no futuro, estará disponível um automático de 8. Não adianta falar de eficiência ou tempo de pista: quem gosta de dirigir está preocupado com isso apenas, dirigir, e nesse aspecto o câmbio manual continua imbatível. Quem se importa que uma dupla embreagem faz você ganhar incríveis 0,48367 segundos por volta numa pista? Quanto tempo você passa no seu carro em estradas, e quanto tempo em “track days”? Tem certeza que esses “segundos a menos” na pista valem o custo de deixar a diversão para um computador, e não para você?

Estou divagando, mas realmente me sinto muito feliz que o Corvette, ao contrário de tantos outros tristes exemplos, mantenha a opção do câmbio manual. Outro motivo de grande alegria para os fãs: a fábrica manteve o famoso teto rígido removível, que agora é de fibra de carbono, assim como o capô, e que é facilmente guardado dentro do porta-malas. Presente no Corvette desde a 2ª geração, o teto removível pode vir pintado na cor do carro ou na aparência natural da fibra, ao gosto do freguês, e faz do Corvette um “cupê-targa”. A opção de um segundo teto transparente, de acrílico, também continua presente.

O carro foi apresentado agora, mas só vai estar disponível no final do ano, já como modelo 2014. Estou ansioso para ver pessoalmente...

Mais informações sobre o carro no site oficial:
www.corvettestingray2014.com

E aqui, em português, o melhor conteúdo “on line” do Brasil a respeito do Corvette (de todas as gerações, não só desta última):
http://corvettebrasil.blogspot.com.br/

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Feliz Dia do Professor!



Eu cursei o ginásio há tanto tempo que, naquela época, se chamava “ginásio” (equivale ao ensino fundamental de hoje). Tive uma professora de biologia que, em pouco tempo, deixou transparecer que não seria muito capaz de impor disciplina à turma e, mais ainda, que tinha bem pouco conhecimento da matéria (o colégio era tão ruim que a maioria dos professores era “emprestada” de outras matérias ou até de outras profissões). O que, claro, era a combinação perfeita para despertar o pior possível em termos de comportamento.

A turma, então, era particularmente cruel com aquela professora que, nos seus piores momentos, chegava a nos proferir uma “praga”: “a minha vingança é saber que, dessa turma, como de todas as turmas, pelo menos um vai ser professor!”.
E eu ria daquilo comigo mesmo: “Há!! Eu, hein? Eu vou ser é advogado!”
=))
Parabéns a todos nós, professores :-)

terça-feira, 10 de julho de 2012

A Lenda do Voto Nulo

Esse é mais um dos “mitos jurídicos”, aquelas lendas malucas que pairam sobre o mundo do direito e que volta e meia insistem em ressurgir das trevas para assombrar os incautos. Esse mito em particular, ao contrário daquele de que “advogado é doutor” – que é só uma bobagem sem maiores consequências –, acaba tendo efeitos muito sérios, porque influencia na crucial decisão dos cidadãos a respeito de quem escolherão como candidatos. E, com a proximidade das eleições, pululam e-mails e mensagens em redes sociais propagando mais esse mito...

Diz a lenda que, “segundo a lei”, se houver maioria absoluta (50% mais um) de votos nulos, a eleição seria anulada e outra realizada em seu lugar. Há ainda uma outra versão do mito que acresce um detalhe: na nova eleição que vai ser convocada, só podem se inscrever candidatos que não tenham participado da anterior.

Ocorre, porém, que ambas as informações são completamente falsas. A lei eleitoral não diz nada disso – muito ao contrário, afirma que os votos nulos são simplesmente desconsiderados. O que exige nova votação é a anulação da própria votação, o que não tem nenhuma ligação com voto nulo!

Veja os artigos da lei eleitoral:

Art. 220. É nula a votação:
I - quando feita perante mesa não nomeada pelo juiz eleitoral, ou constituída com ofensa à letra da lei;
II - quando efetuada em folhas de votação falsas;
III - quando realizada em dia, hora, ou local diferentes do designado ou encerrada antes das 17 horas;
IV - quando preterida formalidade essencial do sigilo dos sufrágios.
V - quando a seção eleitoral tiver sido localizada com infração do disposto nos §§ 4º e 5º do art. 135.
Parágrafo único. A nulidade será pronunciada quando o órgão apurador conhecer do ato ou dos seus efeitos e o encontrar provada, não lhe sendo lícito supri-la, ainda que haja consenso das partes.
...
Art. 222. É também anulável a votação, quando viciada de falsidade, fraude, coação, uso de meios de que trata o Art. 237, ou emprego de processo de propaganda ou captação de sufrágios vedado por lei.
...
Art. 224. Se a nulidade atingir a mais de metade dos votos do país nas eleições presidenciais, do Estado nas eleições federais e estaduais ou do município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas as demais votações e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 (vinte) a 40 (quarenta) dias.
§ 1º Se o Tribunal Regional na área de sua competência, deixar de cumprir o disposto neste artigo, o Procurador Regional levará o fato ao conhecimento do Procurador Geral, que providenciará junto ao Tribunal Superior para que seja marcada imediatamente nova eleição.
§ 2º Ocorrendo qualquer dos casos previstos neste capítulo o Ministério Público promoverá, imediatamente a punição dos culpados.

Veja a íntegra da lei aqui:


Quer dizer, só nesses casos gravíssimos é que a Justiça Eleitoral (não o eleitor) irá anular a votação inteira. Isso não tem nenhuma relação com voto nulo ou em branco!

Complementando, veja o que diz a Lei 9.504/97:
Art. 2º Será considerado eleito o candidato a Presidente ou a Governador que obtiver a maioria absoluta de votos, não computados os em branco e os nulos.
...
Art. 3º Será considerado eleito Prefeito o candidato que obtiver a maioria dos votos, não computados os em branco e os nulos.

Ou seja: votos brancos e nulos são simplesmente desconsiderados. Esses votos são um prêmio para os corruptos e maus políticos em geral, porque fica mais fácil de se elegerem.

Então, não existem atalhos. Voto nulo não gera nada além de transferir a responsabilidade para os outros eleitores e deixar o caminho livre para que os piores cheguem ao poder.

É verdade que, em alguns casos, os partidos nos deixam com a escolha entre o ruim e o pior, mas isso não muda nossa responsabilidade. O processo eleitoral precisa ser profundamente reformulado no Brasil, é verdade também (o ponto mais importante, a meu ver, é a adoção do voto distrital), mas a responsabilidade final e maior continua sendo do eleitor.

E a conta pelas más escolhas também.

terça-feira, 13 de março de 2012

Flex bom mesmo vai ser flex com turbo


Muito já se disse sobre todas as mazelas do Pro-álcool e todo o dinheiro que o país desperdiçou com subsídios estatais para satisfazer os delírios de “Brasil potência” da ditadura militar – que incluíram, até, a grave crise de abastecimento de 1989. Tempos depois, com o fim do subsídio, o álcool etílico se tornou competitivo graças ao próprio mercado (como sempre deveria ter sido...), via melhorias na produção e aumento do preço do petróleo. Hoje, sem subsídio nenhum, o etanol tem custo atraente em boa parte do país, mesmo com o preço da gasolina e do diesel artificialmente baixos. Pois é, o preço dos derivados de petróleo é artificialmente segurado graças a – de novo! – decisões populistas que vão custar caro no futuro. (Não vou tratar do fato de a gasolina brasileira, além da baixíssima qualidade, estar entre as mais caras do mundo; o preço dela está “baixo” para os patamares brasileiros, bem entendido).

De qualquer maneira, o fato é que as fabricantes (por favor, jamais chame uma fabricante de “montadora”. Elas não juntam pecinhas de Lego...) de veículos oferecem quase 100% dos veículos feitos aqui a tecnologia “flex”, ou seja, a possibilidade de usar gasolina, etanol ou qualquer mistura dos dois. Assim, seja qual for a barbeiragem que o governo de plantão faça, o consumidor sempre tem a opção de escolher qual combustível quer (só por curiosidade, lembram do Siena Tetrafuel, que também rodava com gás natural e gasolina sem álcool anidro?...).

Isso se consegue, essencialmente, graças a sistemas de injeção eletrônica bastante evoluídos. Eles detectam o tipo de combustível que está alimentando o motor em centenas de medições por segundo e o fornecem em quantidades muito precisas para aquela demanda de potência, naquele instante e com o tanto de ar necessário.

Tecnicamente, porém, esses motores enfrentam um problema sério: a taxa de compressão é fixa, determinada pela própria estrutura física do motor. Não há eletrônica que dê jeito nisso. Além disso, um motor que fosse especificamente projetado para o etanol poderia ter taxas de compressão muito mais altas do que a suportadas pelos motores que também trabalham com gasolina (poderíamos estar em algo como 14:1 ou até 15:1). O motor flex, obrigado a ficar num meio termo entre os dois combustíveis, acaba sendo menos eficiente do que o motor específico para um só (algo em torno de 35%; os flex ficam por volta de 30%).

Existem projetos complicadíssimos de motores que alteram sua taxa de compressão para resolver isso: uns modificam, em pleno funcionamento, a estrutura do bloco; outros alteram a forma e o tamanho do cabeçote (o da imagem acima é o Omnivore, da Lotus. Veja um vídeo legal do funcionamento dele aqui: http://www.youtube.com/watch?v=fIG9pWldO8U ). Penso que são exercícios interessantíssimos de engenharia, mas o resultado final vai ser, inevitavelmente, caro e complicado – e talvez pouco confiável na mesma proporção. A solução, penso, se chama turbocompressor.

O famoso turbo usa a energia que seria desperdiçada pelos gases de escapamento para girar uma turbina (daí o nome), que “sopra” mais ar para o motor – resolvendo o velho problema do fornecimento de ar dos motores aspirados. Não é à toa que, com turbo, motores pequenos conseguem potências só alcançadas por motores muito maiores.

Essa vai ser, penso, a solução definitiva para a maior eficiência do motor flex – e finalmente permitir o melhor dos dois mundos para o consumidor. Detectada uma gasolina de baixa qualidade, a central eletrônica baixa bastante a pressão do turbo; com gasolina melhor, a pressão pode ser aumentada. A tecnologia para fazer isso é simples; o Golf GTi já dispunha dela há tempos – e era exatamente por conta da qualidade da gasolina que sua potência variava entre 180cv e 193cv.

Adaptar essa tecnologia para o etanol será razoavelmente fácil; o maior desafio vai ser produzir bicos injetores que suportem um “delta” tão largo (uma variação entre as quantidades de gasolina em marcha lenta até as quantidades extremas de etanol puro em aceleração máxima). Comparado ao desafio inicial do próprio flex, porém, esse vai ser moleza.

O flex turbo pode ser preparado para economia em carros populares; para potência em esportivos; ou para um misto dos dois, ou até, em carros mais caros, em opções selecionáveis pelo motorista entre um extremo e outro. Nos luxuosos e esportivos o turbo já é usado há muito tempo; com essa tecnologia se tornando cada vez mais popular, está mais do que na hora de termos um turbo, de fábrica, que aproveite as qualidades superiores do etanol. Quem tem turbo “mexido” entende bem dessas vantagens... Só falta a confiabilidade de fábrica!

Isso, claro, até os híbridos com turbinas não se tornarem a regra no mercado... Como este aqui: http://www.jaguar.com/gl/en/about_jaguar/project_c-x75/innovation ! A turbina, por não ter movimento reciprocante, apenas giratório, dura mais e tem eficiência muito maior do que os motores a pistão... E o “flex”, nesse caso, é bem mais radical: ela aceita gasolina, etanol, metanol, diesel, biodiesel, gás natural...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Doutor é quem fez doutorado (ou “às vezes a vaidade é maior do que a própria lei”)



Do mesmo modo que existem as “lendas urbanas”, existem também no mundo do Direito as “lendas jurídicas” – histórias claramente absurdas mas que, por motivos que a razão ignora, vão se perpetuando no tempo e às vezes até adquirindo ares de verdade incontestável. Uma, em particular, é especialmente resistente, talvez por conta de costume arraigado (mas nem por isso menos errado), talvez por causa da invencível vaidade humana: a de que bacharéis em Direito “mereceriam” (vaidade, sempre a vaidade...) ser chamados de “doutores”.

As origens da lenda variam conforme o “contador do causo”; às vezes o motivo da pérola seria um “decreto real de Portugal” (hein?), noutras um “alvará” (ai, socorro...) que “determinaria” que “bacharel também é doutor” (socorro ao quadrado...). A versão mais famosa, porém, é a de que D. Pedro I, na mesma lei que determinou a criação dos cursos jurídicos, “inventou” que o bacharel teria o “direito” ao título de doutor.

A história, claro, é completamente falsa. Para não alongar muito, vamos logo à letra do texto da Lei de 11 de Agosto de 1827, que é a norma que criou os cursos de Direito no Brasil (em Olinda e no Largo de São Francisco – esse é o motivo, a propósito, de por que 11 de agosto é o dia do estudante e também o dia do advogado):

Art. 9.º - Os que freqüentarem os cinco annos de qualquer dos Cursos, com approvação, conseguirão o gráo de Bachareis formados. Haverá tambem o grào de Doutor, que será conferido áquelles que se habilitarem com os requisitos que se especificarem nos Estatutos, que devem formar-se, e sò os que o obtiverem, poderão ser escolhidos para Lentes.

Ou seja, a lei dizia exatamente O CONTRÁRIO do que afirma a lenda: quem se forma no curso de Direito tem grau de “bacharel”, enquanto que o título de doutor seria reservado àquele que obtivesse tal grau, segundo as regras que seriam estabelecidas para isso pelos estatutos das faculdades recém-criadas – ou seja, o obtivessem no curso de doutorado. E só quem tivesse o grau de doutor poderia ser escolhido como “lente” (o que hoje seria o “livre-docente”).

Uma variação ainda mais absurda da lenda dizia que a “habilitação de doutor” não seria o curso de doutorado, mas sim o ingresso na OAB (ó, resistente vaidade...). Quem inventou essa bobagem não se deu ao trabalho de pesquisar alguns segundos na internet e descobrir que a OAB só foi criada no anos 1930, ou seja, mais de cem anos depois da promulgação da lei...

É óbvio que essa lei não está mais em vigor, mas o importante é notar que NUNCA existiu a norma que a lenda propaga. Em tempos outros, talvez fosse justificável a dúvida, dada a dificuldade de se saber se uma lei antiga existiu mesmo ou não. Nos tempos atuais, em que tudo está ao alcance e ao tempo de um clique, é difícil entender como uma tolice dessas proporções continua fazendo adeptos.

Não acredita? Veja a íntegra da lei aqui:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/revista/Rev_63/Lei_1827.htm

“Mas e o costume?”, dirão alguns. Ora, também há um “costume” de se dizer “menas” e é errado na mesma proporção.

Que leigos cometam esse erro é compreensível; não houve ninguém a ensiná-los. Temos nós, que tivemos a oportunidade de estudar, o dever de esclarecer a quem assim desejar. Pior (muito pior) são professores de direito propagarem o erro – aí é imperdoável.

Enfim, advogado não é doutor. Juiz não é doutor (a propósito, aproveite e pare de chamá-lo assim no endereçamento das petições!). Médicos e quaisquer outros profissionais também só serão doutores se e somente se cursarem uma pós-graduação stricto sensu chamada “doutorado” (ó, incrível descoberta!).

Uma questão final: “doutor” é título acadêmico. “Doutor” não é “pronome de respeito”, nem muito menos título profissional. Então, mesmo que tenha doutorado, só faz sentido chamar alguém de doutor no ambiente acadêmico, não no profissional. Se um advogado tiver título de mestre, o juiz deve chamá-lo de “mestre” na audiência? Ou o promotor ao juiz, ou este ao delegado? Claro que não. Então, é exatamente da mesma forma para o título de doutor. Ou, mais claro ainda: se fora do ambiente profissional o juiz tiver o hobbie de colecionar selos, você vai incluir isso no endereçamento da petição?...

Então, de uma vez por todas, diga não às lendas! :-)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Voto Distrital: vereador de luxo?


Sir Winston Leonard Spencer-Churchill foi, na opinião de muita gente (e eu me incluo entre eles), o maior estadista do século XX. Desde muito cedo tentou alertar o mundo sobre o perigo que representavam Hitler e seu nacional-socialismo, foi peça chave durante todo o decorrer da guerra e teve enorme importância na vitória final dos aliados. Talvez ele tenha sido, isoladamente considerado, o maior responsável por essa vitória – o que significa, em última instância, que é em grande parte graças a ele que eu, você e o resto do mundo não sejamos, hoje, escravos em um campo de concentração nazista. Churchill já tinha seis livros publicados aos 26 anos, foi um dos maiores oradores de todos os tempos e foi ainda vencedor do Prêmio Nobel de Literatura (1953) por sua espetacular obra “A Segunda Guerra Mundial”.

A par desses fatos largamente conhecidos, há dois outros que quero destacar aqui: 1. ele iniciou sua carreira política como deputado e 2. como é sabido, os deputados no Reino Unido, da mesma forma que na maioria das democracias consolidadas, são eleitos com base no voto distrital. Churchill, o insuperável estadista que enfrentou e venceu o nazismo, foi eleito pelo voto distrital.

Nos debates sobre reforma política de que tenho participado, um dos argumentos que alguns tentam usar contra o voto distrital é que essa forma de eleição transformaria o deputado em algo que chamam de “vereador de luxo”. E a primeira coisa em que penso quando ouço isso é, justamente, em Winston Churchill.

Claro, bastaria isso para encerrar a questão – teria sido Churchill então um “vereador de luxo”, seja lá o que isso signifique? Mas vamos aprofundar um pouco a discussão.

Como se sabe, o sistema de voto distrital divide os eleitores em grandes distritos, e cada um desses distritos elege seu deputado – o que gera incontáveis vantagens sobre o sistema absurdo de “voto proporcional” que o Brasil utiliza atualmente. Para alguns críticos, porém, o voto distrital faria imediata e automaticamente (para não dizer “por mágica”) com que o deputado, ao invés de se preocupar com as grandes questões nacionais, fosse cuidar apenas das picuinhas de seu próprio distrito.
Mas há então que se perguntar: o que gera essa vinculação entre uma coisa e outra? Qual é, exatamente, a relação de causa e efeito entre elas? Ora, nenhuma, rigorosamente nenhuma. A escolha do deputado é, sim, feita no distrito, mas porque diabos o deputado iria se preocupar somente com os problemas do distrito? Só mesmo mágica para explicar essa pretensa relação.

Os eleitores daquele distrito obviamente estão preocupados com as grandes questões nacionais – saúde, educação, corrupção, segurança, inflação. Então, se o deputado quiser se reeleger na próxima eleição, ele vai ter de se preocupar com elas também. Se, ao contrário, ele pretender ter um péssimo resultado eleitoral, basta agir como o tal “vereador de luxo”. Numa democracia saudável, isso será suficiente para que a grande maioria dos eleitores de seu distrito nem pense em votar nele de novo.

É assim, aliás, que as coisas funcionam na maior parte das democracias do mundo (Estados Unidos, Japão, França, Itália, Austrália... e, claro, Reino Unido) e em nenhuma delas se tem notícia de que os deputados tenham deixado de lado as mais importantes questões nacionais para se tornarem “vereadores de luxo”. Isso simplesmente não aconteceu em nenhum desses países. Muito ao contrário: com a fiscalização superior proporcionada pelo voto distrital aos eleitores, os deputados ficam ávidos por “mostrar serviço” e fazer um bom trabalho exatamente nas grandes questões, não nas picuinhas. Eles sabem que a sobrevivência política deles depende disso.

Em resumo, a teoria não se sustenta e a prática demonstra o exato oposto. E Churchill, no especial lugar que lhe foi reservado no Paraíso, certamente dá boas gargalhadas toda vez que escuta essa conversa de “vereador de luxo”.

domingo, 25 de setembro de 2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A Arte do Risoto, ou como não arruinar um jantar



Risoto, além de ser um clássico, é sofisticado e nunca enjoa. Versátil, é possível fazer risoto de quase tudo (o que gera desde combinações brilhantes até invencionices intragáveis, mas deixa isso pra outra hora), fazendo dele o acompanhamento perfeito em qualquer jantar mais elaborado. É uma refeição tão rica que, conforme o caso, pode deixar de ser acompanhamento para se alçar a prato principal.

Apesar disso tudo, não é muito fácil de fazer. Existem boas receitas na internet, mas alguns cuidados são indispensáveis para um bom risoto. Vou explicar os principais.

O primeiro, como em qualquer receita, é a escolha dos ingredientes. Já vi bons risotos feitos com tipos variados de arroz, mas o clássico é mesmo o de arroz arbóreo. Ele contém uma quantidade de amido muito maior do que o arroz comum – e é esse amido, quando corretamente desprendido do grão, que dá ao risoto sua consistência pastosa característica. Não adianta tentar fazer risoto com arroz agulhinha: pode ficar um delicioso “arroz agulhinha com alguma coisa no meio”, mas definitivamente não será um risoto.

Todo o resto decorre daí: por ter mais amido, o risoto exige uma quantidade muito maior de água do que o arroz comum. Como regra geral, será algo próximo de três partes (volume, não peso) de água para uma de arroz (o arroz comum exige algo em torno de 1,5 para 1). Essa água precisa estar muito quente e ser adicionada aos poucos, justamente para que se consiga a liberação do amido.

Esqueça os caldos industrializados (aqueles que vêm em cubinhos) e faça o seu próprio. Se vai fazer, faça direito! Caso contrário, já compre de uma vez aqueles “risottos prontos”...

O outro ponto fundamental, que é normalmente onde todo mundo erra: risoto exige esforço. E é “esforço” físico mesmo, que significa mexer vigorosamente o arroz durante todo o processo. É cansativo, especialmente com quantidades maiores, e por isso muita gente desiste no meio da receita; só que, sem isso, nosso querido arroz arbóreo não libera seu venerando amido, fica duro por dentro e o resultado é um desastre. É exatamente por exigir tanto movimento com a colher que a água deve ser acrescida aos poucos, já que não há como mexer corretamente o arroz se toda a água for jogada de uma vez.

Os ingredientes adicionais (abobrinha, pato, frango, seja lá do que você for fazer o risoto) já devem estar cozidos (ou assados, ou o que você preferir) porque são juntados quando o risoto já está quase pronto. É outro erro comum achar que “tudo vai para a panela” e submeter a pobre da abobrinha à mesma tortura do arroz... Lembre-se: abobrinha não tem amido para liberar! Acredite em mim e também não tente extrair amido de pato, funghi, rúcula ou qualquer outra coisa que não seja o próprio arroz, ok?

A manteiga é essencial para o sabor e para a cremosidade; porém, por ser um ingrediente mais delicado, deve ser juntado somente ou final do processo (não, não dá certo jogar a coitada da manteiga no meio daquela água toda!) ou logo no começo, antes da água, para refogar o arroz (eu gosto de dividi-la na metade para fazer as duas coisas). O parmesão, pelo mesmíssimo motivo, só é juntado ao final. Ambos são mexidos para homogeneizar, mas com delicadeza.

O “ponto” do risoto exige atenção. Ele deve ser pastoso, mas o interior dos grãos tem de manter uma certa firmeza ao morder (“al dente”). Se ficar tempo de menos (ou com água de menos) os grãos ficarão muito duros e sem gosto; se cozinhar tempo demais (ou com água demais) vai deixar de ser “pastoso” e virar “quase sopa”. Com o tempo, você pega prática e vai saber o momento de tirar do fogo só de olhar; até lá, não se acanhe e vá experimentando a receita até chegar ao ponto certo.

Então, resumindo, se você quer fazer risoto, você precisa, essencialmente, da seguinte receita: boa matéria prima, conhecimento adequado e bastante esforço.

Receita, aliás, que se aplica a praticamente tudo de bom que existe na vida :-)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Corvette C7


Está confirmado: o Corvette de sétima geração (C7) chega em 2012, já como versão “2013” para comemorar os 60 anos do carro. Não se sabe exatamente como ele será, mas já foi divulgado que vai ser baseado no famoso “Corvette Concept”, exatamente aquele que fez rápidas aparições no filme Transformers II. Com base nesse conceito é que foi elaborada a imagem acima – como um reflexo do Geração II, o mítico Stingray. A propósito, o próprio nome “Stingray” deve ser retomado.

Pouco se sabe também sobre as especificações técnicas, mas “os boatos” dizem que várias partes metálicas vão ser substituídas por fibra de carbono para uma redução radical de peso. Além disso, fala-se que o comando de válvulas finalmente sairá do bloco e irá para o cabeçote (o que me faz supor que teremos novamente um Corvette multiválvulas, como já havia sido o C4 de série especial Z06). Presume-se, ainda, que o motor siga o caminho seguido pelos Corvettes de competição, em que a cilindrada diminui um pouco (de 6.2 para 5.5) em prol de maiores rotações.

Curiosamente, o mesmo V8 6.2 do Corvette básico (chamado de LS2) tem, em alguns outros carros (como o crossover Escalade), versões flexíveis (que lá rodam com E85 feito de milho). Seria bem interessante um Corvette que, além de multivávulas, também rodasse com álcool, não?...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Dez Mitos sobre Bin Laden



Por ser o homem mais procurado do mundo, era natural que surgissem lendas e mitos variados sobre Bin Laden. O jornalista Jason Burke, do The Guardian (veja a matéria original aqui: http://www.guardian.co.uk/world/2011/may/03/osama-bin-laden-10-myths-cia-arsenal), compilou os 10 mitos mais famosos sobre o terrorista:

1. Ele foi “criado” pela CIA
Osama Bin Laden nunca recebeu nem dinheiro, nem treinamento dos americanos. Seus seguidores também não. Os guerrilheiros “mujahedin” afegãos é que receberam, no começo dos anos 80. Bin Laden e sua turma chegaram ao Afeganistão bem depois (só para lembrar: menos de 10% dos membros do Talebã é afegão. O resto é todo composto de estrangeiros, especialmente da Arábia Saudita e Egito).

2. Ele teria uma enorme fortuna
Apesar de pertencer a uma das famílias mais ricas da Arábia Saudita, Bin Laden teve de deixar todos os seus bens quando saiu de seu país em 1991 em direção ao Paquistão (e depois ao Sudão). A família o deserdou pouco tempo depois.

3. Ele foi o responsável pela explosão, em 1993, no World Trade Center
O terrorista que realizou o ataque, Ramzi Youssef, trabalhava para Khaled Sheikh Mohammed, que só entrou na Al-Qaeda três anos mais tarde.

4. Ele enriqueceu com o tráfico de drogas
Apesar de essa acusação constar do estudo feito pelo governo britânico logo depois do 11 de setembro, nenhuma prova foi encontrada nesse sentido.

5. Ele nunca se expunha ao perigo
Apesar de ser falsa a história que ele gostava de contar a respeito de ter enfrentado sozinho um general soviético, testemunhas afirmam que ele participou de combates em Jaji, em 1987, e em Jalalabad, em 1989.

6. Ele passou a maior parte do seu período no Afeganistão se escondendo em cavernas
Apesar de ter se encontrado com jornalistas numa caverna em Bora Bora, ele vivia numa confortável fazenda próxima dali, na cidade de Hadda. Em 1999 se mudou para Kandahar e, seis anos depois, para o lugar onde foi encontrado pelos americanos. Não há nenhuma prova de que ele tenha morado em cavernas.

7. Ele levava uma vida de farra em Beirute antes de se tornar religioso
Não há nenhuma prova nesse sentido: tudo que se apurou indica, ao contrário, que ele era tímido e quieto. Ele se casou jovem e passava muito tempo lendo textos religiosos.

8. Ele estava à beira da morte por causa de uma doença nos rins
Havia relatos de a respeito de algum problema nos rins mas certamente nada que pudesse levá-lo à morte. Suas dores nas costas eram, provavelmente, originárias da sua altura (1,95m) e de sua vida quase sedentária.

9. Ele ordenou ataques na Chechênia, nas Filipinas, na Indonésia e teria uma vasta rede de terrorista ao sul do Saara, na África do Sul e até no Paraguai
Vários governos e agências de inteligência fizeram essas afirmações, mas nenhuma prova nesse sentido foi encontrada.

10. Ele torcia pelo time de futebol Arsenal, da Inglaterra
A torcida desse time grita “Osama, Osama, está escondido em Cabul e ama o Arsenal”; apesar disso, não há nenhuma prova de que ele se interessasse pelo futebol britânico.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Obama Pegou Osama...


E, claro, agora pululam os mitos e as teorias de conspiração. Há quem diga que se trata, somente, de uma jogada eleitoral para favorecer o atual presidente. É mesmo? Fácil assim? Ora, então porque o presidente anterior não fez isso?... John McCain, seu candidato à época, bem que precisava de uma mãozinha!...

Segundo o jornal O Estado de São Paulo, chega a 80,46% o número de leitores que duvidam que Osama tenha morrido. Veja-se: não se trata de analfabetos ou ignorantes, mas de leitores de um jornal de prestígio... A justificativa geral é de que “não acreditam no governo americano”. Mas quem disse que precisam? Também não acreditam na Al Qaeda, que confirmou a morte? Não acreditam na esposa de Bin Laden, que declara que ele morreu na frente dela?

Deveriam, então, ao menos acreditar no próprio Osama: se estivesse vivo, obviamente faria questão de gravar mais um de seus vídeos e expor os inimigos a um gigantesco ridículo. Aliás, era exatamente o que ele sempre fazia toda vez que surgia um novo boato de que ele estava morto ou muito doente.

Talvez, então, ele não esteja morto, mas apenas preso – o que evitaria os vídeos. O risco, porém, de a história vazar, ou mesmo de ele escapar, seria tão alto que é difícil acreditar que alguém fosse estúpido o bastante para tentar algo desse gênero.

Claro que foto, DNA ou qualquer outra prova continuaria sendo inútil para muita gente: os que gostam de achar que “sabem coisas que ninguém mais sabe” acreditam em qualquer bobagem, desde que lhes dê esse gosto de exclusividade – de Papai Noel a invasão alienígena.

Outro fato bem interessante, trazido pelo mesmo jornal pelas mãos da correspondente Adriana Carranca, que vive em Cabul: os afegãos comemoram a morte de Osama muito mais do que os americanos. Não é para menos, se lembrarmos que os ataques de 11 de setembro nos EUA não são, na essência, diferentes do tratamento que o Taleban impunha ao povo afegão.

Como não faltam mitos sobre Bin Laden, no próximo texto vou abordar alguns. Até!

(Ah, claro, alguém reparou o dia em que a morte de Bin Laden foi anunciada? Não? 1º de maio não lhe sugere nada?...
...
Ocorre que esse é o mesmo dia em que se anunciou a morte de Adolf Hitler......
Mais um prato cheio para teorias da conspiração, numerologias e outras bobagens...)...

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Mais uma teoria da conspiração...


Para os que gostam de teorias da conspiração: a Sra. Catherine Middleton, a partir de hoje Duquesa de Cambridge e futura rainha da Inglaterra, morou durante um bom tempo na Jordânia e é fluente em árabe...

Espaço aberto para conjecturas, teorias e especulações :-)

(Enquanto isso, na Síria, que é o que realmente importa, continua difícil de saber quais vão ser os desdobramentos dos protestos, ou se as sanções aprovadas vão surtir algum efeito).

terça-feira, 22 de março de 2011

Um Velhinho em Boston



Sim, existe um velhinho em Boston! Há muitos, é claro, mas esse é especial. Miúdo, meio encurvado pelo peso de seus 83 anos, ele é simpático e de extrema gentileza; quase patologicamente tímido, nunca se casou nem teve filhos. Mora numa casa muito simples, de tijolos aparentes, num bairro operário no lado leste de Boston, onde planta orquídeas e tenta arrumar espaço suficiente para as várias pilhas de livros.

Gene Sharp, além de plantador de orquídeas, é o homem que ajudou o Egito a derrubar Hosni Mubarack. Também é o homem que ajudou a Sérvia a derrubar Slobodan Milosevic e mais um punhado de outras ditaduras.

Seu trabalho já era conhecido antes da revolta egípcia, mas é esta a que agora está lhe dando o status de celebridade. Do alto de sua timidez intensa, ele obviamente não dá a mínima para isso; as ditaduras do mundo, ao contrário, estão com cada vez mais preocupadas com suas idéias e com a velocidade com que elas se expandem.

Desde 1972, Sharp é professor de ciência política na Universidade Dartmouth, em Massachusetts. Fascinado pelo pacifismo de Einstein e pela doutrina de “resistência não-violenta” de Gandhi, ele resolveu estudar a fundo a natureza e a fonte de poder das ditaduras – e como elas poderiam ser combatidas. Seu trabalho de doutorado foi defendido em 1968 e publicado em 1973 sob o nome de “As Políticas de Ação Não-Violenta”. Com base nos elementos elaborados nesse trabalho, ele escreveu outro, bem curto, direto e acessível, para servir de “guia” aos povos oprimidos: Da Ditadura para a Democracia, traduzido para mais de sessenta idiomas e facilmente encontrado na internet.

É fato que as “mídias eletrônicas” (em especial Twitter e Facebook) foram ferramentas importantes para os revoltosos do Egito e da Tunísia, algo que a imprensa do mundo todo tem dado muita ênfase. Mas o quê, exatamente, eles comunicavam por esses meios? O que se divulgava, além de que vinagre e suco de limão no lenço ajudam a minimizar os efeitos do gás lacrimogêneo? A resposta é: as idéias de Sharp.

Segundo ele defende, o poder realmente emana do povo, e nenhuma ditadura consegue se manter indefinidamente se for baseada somente na força. Se perder o apóio popular, e se essa retirada de apóio for feita de forma organizada e planejada, nenhuma ditadura se sustenta – e Da Ditadura para a Democracia explica, de forma simples e detalhada, o passo-a-passo de como isso pode ser feito.
A resistência pacífica, segundo Sharp, não é apenas moralmente melhor do que o combate pela violência: é mais eficaz. O uso da força é o campo da ditadura, e dificilmente os defensores da democracia podem ser páreo para ela nesse seu terreno próprio. Minar suas fontes de poder, ao contrário, sem uso de armas, é muito mais eficiente.

Muito antes das revoltas no Oriente Médio, o trabalho de Sharp já era o livro de cabeceira dos movimentos de libertação na Sérvia e em várias das ex-repúblicas da URSS. O movimento Otpor, da Sérvia, chegou a receber treinamento diretamente do instituto de Sharp (o Albert Einstein Institution, cujo site está aqui: http://www.aeinstein.org/ ).

Tal qual seus colegas do leste europeu, o Otpor (que em sérvio significa “resistência”) teve um papel fundamental na queda de ditaduras que até então pareciam invencíveis (nesse caso, a do ditador-genocida Slobodan Milosevic). Não é à toa que, tão logo começou a se organizar, a juventude no Egito tenha procurado auxílio e treinamento com os militantes do Otpor – e o manual básico de todo o planejamento da revolta tenha sido o livro de Gene Sharp.

Nada mau para um velhinho introvertido!... :-)

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Dominó no Oriente Médio?

Depois dos atentados terroristas em Nova York e em Madri, muito se discutiu sobre o afluxo de imigrantes árabes e muçulmanos nos países ocidentais e os impactos culturais que daí decorreriam. Particularmente no caso do metrô de Madri, alguns aspectos chamavam a atenção: os terroristas eram todos muçulmanos e descendentes de árabes, mas haviam nascido e crescido na própria Espanha. Isso gerou a teoria da “síndrome de desterro”: esses jovens não se sentiriam nem bem árabes (etnia), nem bem espanhóis (nacionalidade). Os pais se reconheciam como estrangeiros e eram gratos à Europa que os recebera e lhes dera boas condições de trabalho; seus filhos, porém, se sentiriam “entre dois mundos” e sem pertencer de fato a nenhum deles; completamente deslocados, acabariam por odiar tanto a Espanha quanto o Ocidente inteiro. Adicione-se isso ao contato com religiosos extremistas, diziam os defensores da teoria, e tem-se como resultado centenas de inocentes mortos barbaramente.

Não sei se essa análise está correta. Provavelmente ninguém nunca vai saber, já que os responsáveis estão mortos. Certa ou errada essa explicação, o que é bem provável, todavia, é que tenha ocorrido um fluxo inverso: o contato cada vez maior dos jovens árabes com o ocidente parece ter sido determinante para a série de revoltas recentes batizada de “Primavera Árabe”, cujo último capítulo (até agora...) se dá na Líbia.

Os próprios revoltosos no Egito explicaram: o estopim dos protestos contra o governo Mubarak foi a revolta na Tunísia, mas a inspiração de seus objetivos são as democracias ocidentais. O maior contato com elas propiciado nos últimos tempos tornou ainda mais visível as diferenças entre sociedades abertas e as ditaduras em que viviam – e da indignação para a revolta aberta não foi um passo tão longo. Se o resultado da revolução vai mesmo ser uma democracia ainda é cedo para dizer, e muito depende de qual caminho o exército egípcio vai seguir. É notável, porém, que até o momento não haja nada no movimento relacionado a religião: não se fala de influência do islamismo na política, em nenhuma vertente. Não se fala de extremistas – pelo contrário, houve cenas tocantes de cristãos coptas protegendo os muçulmanos durante as orações destes na Praça Tahrir, e em seguida sendo convidados pelo imã a orarem juntos. Não se viu ninguém queimando bandeiras dos EUA ou mesmo de Israel.

Nem mesmo a temida Irmandade Muçulmana (autora confessa, no passado não muito distante, de ataques terroristas contra turistas com dezenas de mortos) manifestou interesse em se aproveitar do eventual vácuo de poder. Ao contrário, seus representantes declararam abertamente que não há interesse da organização em disputar a presidência nas eleições que se aproximam (se é verdade ou não, novamente só o tempo vai dizer).

O início é promissor, mas os receios da comunidade internacional sobre qual será o final não são sem fundamento: a História está cheia de exemplos de revoluções que tinham por objetivo pôr fim a uma ditadura e que tiveram como resultado ditaduras piores que as anteriores – o exemplo do que ocorreu no Irã em 1979 é bastante eloqüente.

Há ainda um aspecto fundamental dessas revoltas de que pouco está se tratando: um velhinho numa casinha, num confim gelado do mundo, cercado de livros por todos os lados. Mas vou tratar de Gene Sharp no próximo texto.

Ah, sim, as relações Brasil-Rússia-Ucrânia vão muito bem, obrigado :-)

sábado, 25 de dezembro de 2010

Férias e Diplomacia

A maioria entra agora em férias; este escriba, porém, inicia missão diplomática para fortalecer as relações entre Brasil e Rússia.
Feliz Natal e até 2011!! :-)

sábado, 11 de dezembro de 2010

A farsa da classificação “direita e esquerda”


Socialistas são “de esquerda”? Os liberais são “de direita”? Comunismo é “extrema-esquerda” e nazi-facismo é “extrema-direita”? O “centro” seria então uma mistura dos dois extremos? Qual a “régua” que mede exatamente onde fica cada coisa nessa pretensa divisão bidimensional? Hum, que confusão... Na verdade, essas supostas classificações são a manifestação de uma mal disfarçada ideologia anti-liberal – e, acima de tudo, são completamente falsas. Vou provar.

A origem desses termos bidimensionais é histórica. Na época da monarquia francesa havia o instituto dos “Estados Gerais”, uma assembléia que reunia os representantes da nobreza (“primeiro Estado”) da igreja católica (“segundo Estado”) e do povo (“terceiro Estado”, composto por girondinos e jacobinos). Criou-se o costume (sabe-se lá por que) de os dois primeiros se sentarem à direita do presidente da assembléia, e os representantes do povo se sentarem à esquerda (aliás, eram exatamente estes que se opunham ao estado totalitário e absolutista, veja que curioso...). Nobreza e igreja, claro, sempre votavam a favor da monarquia e da manutenção de seu poder absoluto; e, com isso, o povo sempre perdia por 2 a 1 – o que, como se sabe, foi um dos fatores que culminaram com a Revolução Francesa em 1789.

A partir daí, consolidou-se a “nomenclatura” de que “direita” significa elitista, ou monarquista, ou “anti-povo”, ou essencialmente conservador – alguém que quer manter as coisas como estão. Nessa mesma nomenclatura, “esquerda” passou a significar republicano, ou pró-povo, ou simplesmente revolucionário – alguém que quer mudar radicalmente o modo como as coisas estão.

Curiosamente, logo depois da revolução, os girondinos, por serem mais moderados, passaram a ser chamados de “direita”; os jacobinos, mais radicais, se tornaram a “esquerda”.

A simples descrição da raiz histórica dessa divisão já mostra quão pouca relação ela tem com o espectro político moderno. Mas vamos em frente!

Conforme já expliquei em outro texto, o nacional-socialismo e seu irmão gêmeo, o fascismo, são simplesmente tipos de socialismo. Essa é a essência e a gênese de ambos, e não a de “opostos” do socialismo. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, essa verdade óbvia era extremamente incômoda para os países socialistas. Seus líderes precisavam vender a idéia de que o inimigo não era um igual, mas um “oposto” do que eles próprios representavam.

Lênin já havia inventado o esquema "esquerda é socialismo" e "direita é capitalismo". Stalin não teve muita dificuldade em inventar uma “atualização” conveniente: o socialismo seria extrema-esquerda; as “democracias burguesas”, liberais ou social-democratas seriam centro e o nazi-facismo seria extrema-direita.

Só pelos autores já seria possível ver quão pouco crédito a idéia merece; mas é no histórico que essa fraude se mostra por inteiro. A criação, como se vê, é essencialmente ideológica: Stalin quis se identificar com “pró-povo” e com “anti-nazista”; ao mesmo tempo, impinge na sua classificação a idéia de que seus adversários são “contra o povo” e “com um pé no fascismo”. A realidade e os fatos históricos comprovam, porém, exatamente o contrário.

Não é de admirar as bobagens colossais que daí são geradas por essa classificação viciada. Veja um exemplo: o governo Fernando Collor, que fez o mais absurdo e inacreditável ataque do Estado à propriedade dos cidadãos, bloqueando os depósitos em banco, é comumente chamado “de direita”... Ou então, a ditadura militar brasileira, também chamada "de  direita", em que no auge do período Geisel tinha quase 80% da economia estatizada...Vá entender!

Não caia nessa. Chame as coisas pelo que elas são, não pelo esquema falso que Stalin inventou (liberais de "liberais", conservadores de "conservadores", social-democratas de... ok, você entendeu). Nem ele acreditava nessa “régua” que pretende classificar as complicadas divisões políticas num mundinho bidimensional de direita/esquerda.

No mundo real, essa divisão tola só confunde, ao invés de esclarecer.